O ANARQUISMO E A VIOLENCIA

ESCRITOS DE MALATESTA SOBRE A VIOLÊNCIA

 

«(…) A violência só se justifica quando for necessária para se defender a si próprio, ou defender os outros contra a violência. O delito começa onde termina a necessidade.

(…) O escravo está sempre em estado de legítima defesa e, portanto, a sua violência contra o senhor, contra o opressor, é sempre moralmente justificável; ela deve ter como regra um único critério: a utilidade e a economia do esforço e dos sofrimentos humanos.»

(Umanità Nuova, de 25 de Agosto de 1921)

 

«Os anarquistas não são hipócritas. É pela força que se resiste à força: (…)»

 

(Pensiero e Volontà, de 1 de Setembro de 1924)

 

«Pensamos que a violência é necessária, que é um dever, quando é defensiva e somente quando for defensiva. E por defensiva não queremos dizer apenas contra a agressão física, directa, imediata, mas também contra todas as instituições que mantêm, graças à violência, as pessoas na escravidão.»

 

(Umanità Nuova, de 21 de Outubro de 1922)

 

 

 

EXCERTO DE UM ARTIGO SOBRE A NATUREZA DA LUTA ANARQUISTA

 

(…) Defrontando-se com um meio social baseado na violência e no crime, defrontando­-se com uma contra-revolução organizada e armada, o movimento anarquista inclui neces­sariamente práticas de carácter violento. A acção dos anarquistas pacifistas, se bem que seja muito positiva, é manifestamente insufi­ciente. Os anarquistas pacifistas não dão a devida importância ao facto de a classe dominante estar disposta a oferecer uma resistência encarniçada a todas as lutas que ponham em causa os seus privilégios e a sua posição social.

 

Os actos violentos dos anarquistas são completamente distintos dos actos terroristas, efectuados, por exemplo, por certos agrupa­mentos leninistas e nacionalistas. A violência anarquista é algo completamente diferente da violência a que recorrem as organizações que lutam pela conquista do Poder, é algo total­mente exterior à violência política. Os anar­quistas não sequestram ninguém, não torturam pessoas e não agridem indivíduos indiscrimi­nadamente. Os anarquistas respeitam a dignidade de todos os indivíduos, inclusive a dos seus inimigos, e não procuram impor as suas ideias pelo terror, pois a sua acção é libertadora, e não política. Os anarquistas não visam dominar ninguém, pela violência física, pelo terror ou por qualquer outro meio. Rejeitando todo e qualquer género de responsabilidade colectiva, que consideram uma mera abstracção, os anarquistas pensam e agem de acordo com o princípio de que cada pessoa deve ser responsabilizada pelas suas acções, ou melhor, arcar com as conse­quências dos seus actos. Se por razões de defesa, e não por vingança, podem decidir liquidar, por exemplo, um ditador, jamais os anarquistas responsabilizam uma colectividade inteira por crimes cometidos apenas por alguns dos seus membros (por exemplo, pelos seus chefes). Contrariamente aos reformistas brutais, os anarquistas possuem uma visão crítica da violência.

 

A violência dos anarquistas é uma mani­festação do seu espírito insubmisso e de revolta, é uma violência social, isto é, corres­ponde a necessidades da luta social dos oprimidos e revoltados, constitui uma resposta necessária à violência organizada da socie­dade autoritária, ou seja, é de carácter defensivo. Sendo a violência para eles uma dura necessidade, e não um prazer, os anarquistas procuram reduzi-la ao mínimo indispensável. O que move os anarquistas é a obra positiva da revolução social, é a construção de um meio social baseado na LIBERDADE. (…)

 

(…) No âmbito da prática anarquista, são também relevantes os actos de revolta indi­vidual, actos que, na maior parte dos casos, assumem formas violentas e que não são, obviamente, determinados por considerações de ordem táctica ou estratégica. Sendo nitidamente exteriorizações de elevados senti­mentos éticos (refiro-me, por exemplo, ao assassinato do presidente McKinley pelo anar­quista Czolgosze ao atentado de que foram vítimas o rei D. Carlos de Portugal e o seu filho mais velho), evidenciando a existência de sensibilidades humanas que não suportam de forma nenhuma as injustiças que cometem os defensores da desordem capitalista, estes actos individuais, apesar do seu carácter excepcional, muito contribuem para que o movimento anarquista não se atole no lodaçal das "liberdades" concedidas e regulamentadas pelo Estado dito de Direito, para que não se transforme em algo comparável aos partidos políticos. (…)

 

David Oliveira

 Extraído da revista anarquista ACÇÃO DIRECTA – II série – N.º15  – Outubro /Novembro de 2001.

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O Ciúme e o seu Antídoto

O CIÚME E O SEU ANTÍDOTO

 

Ocupar-se da chamada “questão social” e deixar de lado os estragos e repercussão da terrível praga social, que é o ciúme, no terreno sexual, para a humanidade, parece-me tremenda falta de lógica. Eis aqui algumas das razões em que apoio esta asserção:

1.      O ciúme causa, anualmente, conforme o ano, de mil a mil e duzentas vítimas em França . Estes números não concernem, claro está, mais que às vítimas e estragos do ciúme conhecidos do público. Se a proporção é a mesma nos outros países, resultarão imoladas a esta modalidade da loucura, de quarenta a cinquenta mil vítimas anualmente.

2.      Consideremos os meios aos quais recorrem os ciumentos para saciar o seu furor. Assassina-se por ciúme, servindo-se de tesouras, punhais, limas, estiletes, canivetes e navalhas de toda espécie, martelos, machados, machadinhas, corta-papéis, foices, revólveres, fuzis, metralhadoras, etc. Para matar e morrer, os ciumentos recorrem ao veneno, à defenestração, ao enforcamento, ao afogamento, à estrangulação, etc., etc. Emparedam, calcinam, cortam em pedaços, crucificam. Arrancar os olhos, cortar o nariz e as orelhas, ablação dos órgãos sexuais, incluindo seios e outras mutilações – figuram no catálogo dos suplícios infligidos aos seres a quem os ciumentos pretendem amar sem rival. E não aludo aqui às denúncias apresentadas aos tribunais. Os cárceres estão cheios de pobres-diabos de ambos os sexos, vítimas do ciúme. (Se algum leitor me acusar de exagero, convido-o a ler o relato dos dramas passionais na imprensa de todo mundo).

3.      Os crimes originados pelo ciúme, exigindo a intervenção da lei com as suas sanções penais, justificam e reforçam as instituições autoritárias e apertam ainda mais as redes do contrato social imposto.

Do que deixo escrito pode concluir-se que o ciumento é um ser humano em estado de demência, senão em vias de regressão. O pior é que este modelo de retardatário se encontra ainda nos meios de vanguarda ou extremistas. Até entre os chamados anarquistas, o ciúme causa mortes, suicídios, delações, brigas e inimizades entre camaradas. Importa, pois, em minha opinião, analisar o ciúme, procurar o remédio e, determinado este, combater a doença.

Tem-se objectado que “o ciúme não se compra”. Fraca objecção. Aceitá-la equivaleria a desesperar de todo esforço tentado, em vista de libertar o ser humano dos preconceitos que lhe abrasam o cérebro. Também o crente, o patriota e outros doentes mentais asseguram que a fé, o amor à pátria, etc., tampouco se compram. O capitalista afirma, do mesmo modo, que o desejo de acumular riquezas todos o recebem em herança. O ciúme é diagnosticável, analisável, como qualquer outro sentimento autoritário ou paixão.

Numa novela de Georges Delbruck, “No País da Harmonia”, um dos personagens, uma mulher, define assim o ciúme: “Para o homem, a graça, a beleza, os encantos duma mulher implicam na posse da referida mulher, no direito de dominá-la, de seviciar a sua liberdade, na monopolização do seu amor, na proibição de amar outro homem. O amor serve de pretexto ao homem para legitimar a sua necessidade de domínio. Esta falsa concepção do amor está de tal forma enraizada entre os chamados civilizados, que não duvidam em pagar com a sua liberdade a possibilidade de destruir a liberdade da mulher a quem pretendem amar.” Este quadro é exacto, mas tanto se aplica à mulher, como ao homem. O ciúme na mulher é tão monopolizador como no homem.

 
O amor, tal como entendem os ciumentos, é, por conseguinte, uma categoria do arquismo. Não é mais do que a monopolização dos órgãos sexuais palpáveis, da pele e do sentimento de um ser humano, em proveito exclusivamente de outro. O estatismo é a monopolização da vida e da actividade dos habitantes de toda um região, em benefício dos que a regem. O patriotismo é a monopolização, em proveito do Estado, das forças-vivas humanas de todo um conjunto territorial. O capitalismo é a monopolização, a serviço de um reduzido número de privilegiados, em cuja posse se encontram as máquinas e os géneros necessários à vida, de todas as energias e faculdades produtivas do resto dos homens.

 
A monopolização estadista, patriótica, religiosa, capitalista, etc., está em germe no ciúme, pois é evidente que este precedeu as dominações política, religiosa, capitalista, etc. O ciúme precedeu a vida em sociedade. Por esta razão, os que combatem a mentalidade social dos nossos dias não podem deixar de declarar guerra ao ciúme. Sendo o amor considerado como uma estranha monopolização, o ciúme aparece-nos como um simples aspecto da dominação do homem sobre o seu semelhante, homem ou mulher, um aspecto do descontentamento ou da cólera que um ser vivo sente quando vê ou prevê que a presa se lhe escapa das mãos. A isto conduz o ciúme, na maioria dos acessos, despojados de todo floreio ou compostura de que necessitam para tornarem-se apresentáveis e aceitáveis, decorados pelas tradições, as conveniências, as leis religiosas ou civis. A este aspecto mais comum do ciúme dou eu o nome de ciúme-propriedade.

Existe uma segunda forma do ciúme, a que poderemos chamar ciúmes sensuais. Um dos participantes da associação amorosa, encontrando no seu companheiro ou companheira perfeita satisfação, vê-se privado, pelo fato de haverem cessado as relações puramente sexuais, que o vinculavam ao outro ou à outra. Seu pesar agrava-se, ao saber que um terceiro desfruta de um prazer que o “doente” se havia acostumado a reservar para si, sem receio de comparticipação. A doença agrava-se à medida em que é mais voluptuoso o objecto de carinho, ou mais dotado está de atributos físicos especiais.

Há ainda uma terceira modalidade de ciúme: a sentimental. É, segundo os especialistas, a mais grave e a mais interessante forma da doença. O padecimento, que pode chegar até uma indescritível tortura moral, provém dum sentimento claramente caracterizado por uma diminuição da intimidade, redução da amizade, debilitação da felicidade. Explique-o ou não, o paciente percebe a sensação, bem clara, de que o amor, do qual era o eixo, diminui, baixa e ameaça extinguir-se, enquanto que o seu, sobreexcitado, aumenta. Ressente-se moral e fisicamente, e a sua saúde geral altera-se.

Reconheço que os “ciúmes sentimentais” podem considerar-se como uma reacção do instinto de conservação da vida amorosa contra o que ameaça a sua existência. Sabendo-se que uma vida sentimental profunda se alimenta de amor, de afeição, de confiança recíproca, compreender-se-á que, ao faltar-lhe o seu alimento, e ao ameaçá-la com o desaparecimento, haja reacção lógica, resistência natural.

Eu sei, os fatos o demonstram, que o “ciúme sentimental” é difícil de curar, que pode mesmo ser incurável. Certos enfermos recebem tal golpe duma decepção amorosa, que toda a sua vida se ressentem disso. Seres que edificaram a sua vida sentimental sobre uma afeição única, sentem-se, ao faltar-lhes esta, de tal modo desorientados, que se suicidam, como acontece frequentemente com os portadores de doenças tidas incuráveis. Não é que eu negue que seja uma crueldade, sadismo até, deixar no abandono e na dor a quem ama sincera e profundamente e já teve ocasião de ser amado do mesmo modo. Negar isto evidenciaria falta de juízo por parte de um partidário do contrato ou do pacto. Mas não são estas considerações que hão de curar o doente.

Resta ainda a considerar os ciúmes de ordem sentimental-sexual. Na sua “Dor Universal” (p .3), Sébastien Faure apresenta o ciúme como um “sentimento puramente artificial”, “derivado de circunstâncias abolíveis”, “ele próprio eliminável”. Para mim, a abolição dos ciúmes depende da “abundância” sexual e sentimental, que possa reinar no meio em que o indivíduo se desenvolve, da mesma forma que a satisfação intelectual deriva da abundância cultural posta à disposição do indivíduo, do mesmo modo que aplacar a fome se deduz da abundância de alimento posto à disposição do indivíduo.

Quer se trate dum meio comunista, em que as necessidades se satisfazem sem reparar no esforço despendido, ou dum meio individualista, em que a satisfação de desejos se baseia sobre a reciprocidade da prestação de serviços, a situação é a mesma. Tanto um como outro o que desejam é que seus componentes sejam felizes, e não o são enquanto algum deles sofre sua mentalidade, sua fome, seus sentidos ou seus sentimentos insatisfeitos. O capricho, a fantasia, o “pior para ti”, a preferência, a “criança melindrosa”, para o isolado não há caso entre associados que nada podem se entre eles não reina um espírito de bom companheirismo que implique paciência, compreensão, concessões mútuas. E não apenas quando se trata de associados, mas até mesmo tratando-se de companheiros com pouca intimidade e que indo em pós do prazer individual, sem querer ocasionar o mínimo estorvo ao prazer do outro, se emanciparam de preconceitos, como a fidelidade sentimental, no inerente à coabitação, o proprietarismo conjugal e o exclusivismo sexual como sinal de amor geral.

É NA ABUNDÂNCIA, pois, de ofertas e procuras, de ocasiões, que vejo o remédio para os ciúmes. E de que maneira se arrumará esta abundância, para que ninguém seja posto de lado, não sofra, para dizer tudo? Eis aqui o problema a resolver. Na sua “Teoria Universal da Associação”, Fourier tinha-o resolvido, constituindo o matrimónio de tal forma “que cada homem possa ter todas as mulheres e cada mulher todos os homens”.

Não posso estender-me sobre as consequências desta ética sexual, a principal das quais é o desaparecimento da família. Afigura-se-me dificílimo que o comunismo anarquista, apesar do apego de muitos dos seus partidários à fórmula familiar, possa finalmente evitar esta solução, se quer permanecer consequente consigo próprio, ou seja não estabelecendo uma hierarquia de prazeres e necessidades. Não se concebe, efectivamente, que haja anarquistas que possam admitir distinções qualitativas entre as aspirações dos diversos apetites humanos.

O que mais atrai a atenção, quando se estudam a fundo as objeções formuladas contra a solução fourierista, é que as apresentadas pelos libertários se assemelham, como duas gotas de água entre si, aos protestos dos educadores religiosos e dos representantes do Estado contra aquela solução. Aqueles e estes vêem na união do casal e na agrupação da família uma garantia para a perpetuação do sistema de dominação espiritual ou laica. Daí a poesia, as frases enxudiosas, os panegíricos, com que acompanham as descrições do amor conjugal, da Família célula da sociedade. Além disso, se, por um lado, se persegue os partidários das concepções sexuais que contrariam os interesses dos dirigentes, eu ignoro a existência duma lei – desde o código de Hamurabi até os códigos soviéticos – que decrete alguma penalidade contra a exaltação do amor romântico ou da indissolubilidade do laço conjugal. Os que governam, ou seja, os que dominam, bem sabem o que fazem. Penso, por isso, que os comunistas-anarquistas chegarão a considerar a abundância a que atrás me referi (o comunismo sexual voluntário) como o remédio para todos os males do amor. Uma regressão notável a este respeito se verifica desde a guerra europeia, de 1914 -1918.

Outra questão se nos oferece: Poderá o remédio para o ciúme, o exclusivismo sentimental ou a apropriação sexual, remédio que eu resumirei na fórmula tomada a Platão todos para todas e todas para todos, conciliar-se com os princípios do individualismo-anarquista, convir a individualistas? Repondo: Convém certamente aos individualistas dispostos (para usarmos uma expressão de Stirner) a sacrificar algo de sua liberdade para que melhor se afirme sua individualidade. Que visam, associando-se, no domínio sentimental-sexual, determinado número de individualistas? Aumentar, manter ou reduzir cada vez mais o sofrimento? Se o que perseguem é este último objectivo, se é na desaparição do sofrimento que se afirma a sua individualidade de associados, entre eles, na esfera de que nos ocupamos, o amor perderá gradualmente o seu carácter passional para chegar a ser uma simples manifestação de companheirismo; o monopólio, a arbitrariedade, o reparo a dar-se desaparecerão cada dia mais, tornando-se cada vez mais raros. Chegar-se-á assim à fórmula acima expressa, porque nela encontrarão o melhor método para eliminar do seu meio os ciúmes sexuais e as suas consequências, porque, tendo que escolher entre diversos processos, a sua “livre escolha” deteve-se naquele.

Por outra parte, são somente eles os que se comprometem. Não são zelosos (é o caso de jamais sê-lo) de qualquer outro sistema escolhido por grupos diferentes para eliminar o ciúme.

 
Os partidários da abundância, como antídoto contra o ciúme, os organizadores de associações anarquistas com fins sentimentais ou sexuais, os propagandistas da “camaradagem amorosa”, não ignoram a que troças estão expostos por parte de excelentes camaradas ainda não emancipados de preconceitos correntes em matéria de moral sexual. Recordam-se, porém, do que escreveu em “Free Society”, num artigo solidamente esboçado sobre a “Pluralidade em Amor”, o anarquista-comunista F. A. Bernard: “Aqueles que se sentem bastante fortes e bastante entusiastas para atrever-se a serem os primeiros propulsores deste movimento podem animar-se pensando em que as antiquadas concepções do amor se dissolvem, queiramo-lo ou não, até o ponto de que a espécie humana toda inteira não sabe como sair do caos em que se debate. Podem ainda encontrar motivo de satisfação pensando em que vivem coerentemente com as ideias cuja realização assegurará ao ser humano uma existência normal e fértil”.