Cristo é um mito.

 

     A Bíblia fornece-nos uma prova ainda maior que todas as aduzidas até agora, contra a existência de Cristo. Esta prova está precisamente na nossa moral.

     Essa moral, que os apologistas ergueram até aos céus e agora a crítica vai, passo a passo, destruindo, ao desfazer as ilusões criadas em torno da lenda e da idealidade humana – essa moral é a prova mais firme e segura de que Cristo não existiu, porque a moral que os Evangelhos lhe atribuem não pode ser obra de um homem, mas apenas a de uma teologia determinada.

     Esta é sectária de mais e excessivamente irrealizável para que pudesse ser ensinada e praticada por um homem: é completamente oposta às preocupações teológicas e metafísicas de uma seita.

     Há, é certo, máximas realmente morais e boas nos Evangelhos, mas que não podem entusiasmar um espírito positivo, por místico que seja, se bem que esta parte boa da moral cristã, sem a qual o cristianismo não teria podido desenvolver-se… não é… cristã – como mais adiante veremos.

     As máximas – não faças a outrém o que não queres que te façam e faz aos outros o que desejas que te façam – não são uma criação de Cristo, ou dos Evangelhos, porque pré-existiam já no Antigo Testamento, onde estavam desde a moral metafísica das religiões orientais, principalmente da budista e da zendista ou persa.

     Suprimindo todas estas máximas, que não pertencem ao cristianismo, e são, além disso, prova contrária à existência de Cristo, o resto da moral evangélica é condenável, sem remissão, e seria bastante para execrar o homem que a criasse, se fosse obra de um só homem.

     E a Humanidade, que cresceu nas doces ilusões de que o Cristo fora a personificação de todas as perfeições humanas, concentrando nele toda a idealidade… a Humanidade, tornada adulta, deve reconhecer que, na sua adolescência, foi vítima de uma enorme mistificação.

     Os que neste ponto se encontram na verdade, verão por que motivo determinados cristãos da nossa época, como Tolstoi e certos reformadores, alucinados pela lenda, julgando‑se talvez continuadores de Cristo, se regozijam em manter as antigas ilusões, opostas a toda a evidência, a todo o conhecimento sereno e crítico do assunto (1).

     Mas, nem as classes dominantes, nem a casta sacerdotal, que, além da ilusão, tem interesse em perpetuar a mistificação duas vezes milenária – nem elas sequer poderiam impedir que a luz da razão ofusque a moral evangélica… Poucos séculos há que esta luz começou a brotar das inteligências, e, a não ser pelo receio que existe em dizer à Humanidade verdades tão amargas, de a privar tão bruscamente de uma ilusão que, por o ser, constitui uma grande força moral – na hora presente a crítica teria já, não só arrojado dos altares este último ídolo, mas até o teria já precipitado na Geena.

     O que, porém, até hoje se não fez, faz-se, deve fazer-se agora, porque a Verdade não reconhece compromissos nem fraquezas humanas e porque a lógica não se sente satisfeita, se não chega até às últimas consequências.

     A ciência, de resto, não tem que se preocupar com consequências.

     Pois bem: enquanto a crítica trabalhe na demolição do ídolo cristão e das ilusões de uma moral superior que torna respeitável, mesmo a alguns incrédulos, e enquanto destrua o velho erro de acreditar na existência de Cristo, mudando em execração a veneração, tantas vezes secular, da Humanidade, por este ideal de perfeição por ela mesma criado – nós, pelo contrário, poupemos à humanidade a dor de lhe destruirmos o objecto da sua maior veneração, demonstrando-lhe que os defeitos da moral cristã não são imputados àquele Cristo, que nunca existiu, mas sim à teologia que o criou.

     E, entenda-se bem que, em nós, não influem preocupações de nenhuma índole estranha à verdade: nem a finalista daquele que crê, nem a utilitária do nosso sistema. Nada diremos da primeira, porque não nos compete, e acerca da segunda, advertiremos que queremos aproveitar para a nossa tese os defeitos anti‑humanos da moral cristã, que entram a fazer parte do nosso quadro, atraídos pela força irresistível da Verdade (2).

     Se os Evangelhos abundam em máximas desumanas, tantas e de tal calibre que um homem real, desta terra, não teria ousado concebê-las e muito menos pregá-las, sem ir para um manicómio ou para um cárcere, não é evidente que tal circunstância depõe contra um carácter histórico daquele homem e a favor da sua criação puramente mitológica, simbólica e, sobretudo, teológica?

     Vamos, porém, a factos, para nós mais eloquentes.

     A moral evangélica, tiradas algumas máximas boas que não são suas, pode dividir-se em duas grandes categorias: a das máximas irrealizáveis ou desumanas e a das máximas sectárias. E não se diga que tais máximas são puramente mentais, porque tanto as humanas são sectárias, como estas são desumanas, pois umas e outras têm por fundamento comum o carácter teológico, que denuncia a sua origem impessoal e a sua formação sistemática e eclesiástica.

     Comecemos pelo princípio. Em S. Mateus (X, 34, 37) Cristo discorre deste modo: "Não julgueis que vim trazer a paz à Terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada. Vim trazer a discórdia do filho contra o pai, da filha contra a mãe, da nora contra a sogra. Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim, e quem ama seu filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim."

     Em S. Lucas (XIV, 26) exprime-se assim: "Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo."

     Em S. Mateus (VIII, 21, 22) a alguém que lhe pedira autorização para sepultar seu pai, Jesus diz-lhe: "Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos."

     Em S. Lucas (IX, 61) lê-se: "Eis aqui um que diz: – Seguir-te-ei, senhor, mas, primeiro, deixa-‑me ir dispor do que tenho em minha casa. Jesus disse-lhe: – Quem põe a mão no arado e olha para trás, é digno do reino de Deus."  

     Em S. Mateus (XIX, 12) Jesus aconselha os seus discípulos a praticarem a castração voluntária, para que se façam dignos do reino dos céus.

     "Quem não odeia a sua própria vida, não pode salvar-se", – diz Jesus em S. Lucas (XIV, 26).

     E em S. João (XII, 25): "Quem amar a sua vida, perdê-la-á, e quem a odiar neste mundo, conservá-la-á na vida eterna."

     Jesus aconselha também a que não trabalhem; a que se não preocupem com a comida, com a bebida, com os vestuários; a que não pensem no dia de amanhã: que imitem as aves do céu, que não trabalham, e os lírios do campo, que não se cansam nem fiam (Mateus, VI, 24, 34). Prefere Maria, que troca os labores domésticos pelo ascetismo, a Marta, que, por si só, tem de realizar todos os trabalhos da casa (Lucas, X, 39, 42).

     Quer que o homem viva na mais absoluta pobreza, na indigência mais miserável: "Nenhum de vós", diz ele em S. Lucas (XIV, 33), "que não renuncie a quanto tenha, pode ser meu discípulo."

     A própria dignidade humana não lhe merece a mais insignificante consideração.

     "Não resistas ao mal", diz em S. Mateus (V, 39); "e se alguém te ferir na face direita, apresenta-lhe a outra. E aquele que quiser demandar-te em juízo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. E ao que te obrigar a ir carregado mil passos, vai com ele outros dois mil a mais."

     Não é preciso muito engenho nem muita eloquência para provar que esta moral não é realizável, por desumana, isto é, por contrária às leis biológicas e sociológicas, incompatível com a conservação e progresso da espécie humana. Basta expô-la: por si própria se condena.

     Passemos agora às máximas sectárias da moral evangélica.

     O amor pregado pelos Evangelhos não se dirige a todos os homens, mas apenas aos hebreus. Jesus ordena aos seus discípulos que preguem o seu Verbo unicamente aos hebreus, e proíbe-os de entrarem na cidade dos gentios e dos samaritanos (Mateus, X, 5, 7). Diz que os doze apóstolos se sentarão em doze tronos para julgarem as doze tribos de Israel (Mateus,     XIX, 28). Portanto, a sua missão limita-se única e exclusivamente aos hebreus: é um mesquinho nacionalista.

     Tanto assim é, que ele próprio responde a Cananeia, que lhe pedia a cura da sua filha: que fora enviado só para Israel. Acrescentando não ser justo tirar o pão aos filhos para o deitar aos cães (Mateus, XV, 22, 26). E quando em S. João (XVII, 9, 20) pronuncia a sua última prece, declara que pede só pelos que nele crêem.

     Mais imoral e mais sectário ainda é o dogma da predestinação. "Ninguém pode vir a mim", diz Cristo, "se o Pai que me enviou não o trouxer." (João, VI, 44). Por isso declara que adoptará a parábola com os que não forem seus discípulos, para que não compreendam as suas palavras e não possam salvar-se (Lucas, VIII, 10).

     Este dogma imoral, ou sectário, se assim querem, foi posto de propósito na parábola do dono de casa, que representa Deus, o qual chama, ele próprio, a diversas horas, os operários da sua vinha, pagando-lhes depois a todos por igual. E aos que censuram a sua parcialidade, responde, em S. Mateus (XX,1, 6): "Não terei eu direito a fazer, do que é meu, o meu entender? Os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos; por isso, muitos serão os chamados e poucos os eleitos."

     E sempre, deste modo, e segundo esta preocupação teológica, ensina que "todo aquele que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado" (Lucas, XIV, 11); que "àquele que tem ser-lhe-á dado e terá em abundância, e àquele que não tem, até o que não tem lhe será tirado" (Mateus, XIII, 12; Marcos, VI; Lucas, XVIII); que "mandou ceifar os que não lavraram, fazendo-lhes disfrutar do que outros lavraram" (João, IV, 38); que "dos pobres será o reino dos céus, sem outro mérito mais do que a sua pobreza, ainda que sejam vagabundos; que os ricos serão castigados, só por suas riquezas, embora sejam bons" (Lucas, VI; Mateus, XIX; Marcos, X). A mesma inspiração é reconhecida pelas parábolas do conviva castigado sem culpa (Mateus, XXII, 8, 13) e do filho pródigo (Lucas, XV). O dogma da predestinação encontra-se, pois, na Bíblia, erigido em verdadeira doutrina de S. Paulo (3).

     O carácter, a origem, o próprio fim teológico da moral evangélica, estão comprometidos pela circunstância desta moral se basear, não nas boas obras, mas na crença e no culto.

     Ensinava, além disso, "que quem tiver acreditado e tiver sido baptizado, será salvo, mas quem não tiver acreditado, será condenado (4).

     Esta máxima está em relação com a outra, onde Jesus diz aos discípulos que "os que não escutarem suas palavras serão tratados no Dia do Juízo mais severamente do que os habitantes de Sodoma e Gomorra (Mateus, X, 13;  Marcos, VI; Lucas, IX).

     Donde se deduz que, para a moral evangélica, são preferíveis os delinquentes vulgares, contanto que sejam crentes, aos incrédulos, ainda que sejam honrados.

     Esta moral só pode ser teológica. Está em relação com a moral de todo o Antigo Testamento, que, como já demonstrámos, é obra quase exclusivamente teológica, e que, em muitos lugares, cita a máxima referida, transtornando toda a ordem moral e baseando esta nas práticas do culto e nas crenças (5). O coroamento deste sistema é a eternidade das penas, pregadas pelo manso cordeiro de Nazaré (Mateus, XXV, 41-46; XVIII, 8), e o perdão ao inimigo, dado nesta vida apenas, para lhe aumentar na outra os carvões acesos (Epist. aos Rom., XII, 20).

     Onde principalmente se destaca o carácter sectário, teológico e verdadeiramente sacerdotal da moral evangélica, é na pregação das perseguições religiosas. Não só com o famoso compelle intrare, Cristo, ou antes, os que escreveram com a máscara do seu nome, proclamaram a legitimidade da perseguição religiosa (Lucas, XIV, 16-24), mas até os Evangelhos, propriamente ditos, são a pura expressão dessa evidência absoluta em pró desta perseguição. No capítulo XIX de S. Lucas, versículo 27, Jesus põe na boca de um dos personagens das suas parábolas, que é ele próprio, as seguintes palavras: "E quanto àqueles dos meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-mos aqui e tirai-lhes a vida na minha presença." Segundo S. Mateus (XII, 30) e segundo S. Lucas (XI, 23), Jesus disse que todos os que não estavam com ele estavam contra ele, palavras estas que querem significar, necessariamente, que o cristão deve ter por inimigo aquele que não o é.

     No capítulo VII de S. Mateus, adverte os seus discípulos de que se guardem dos falsos profetas, que são semelhantes às árvores que dão maus frutos.

     E acrescenta que toda a árvore que não der bom fruto deve ser cortada e arremessada ao fogo.

     No capítulo XV de S. João, Jesus disse textualmente:

     "1. Eu sou a verdadeira vide, o meu pai é o lavrador.

     2. Toda a vara que não der fruto em mim, ele a tirará.

     5. Eu sou a vide, vós outros as varas…

     6. O que não permanecer em mim, será arremessado fora, como a vara, e secará e enfaixá-lo-ão e o arrojarão ao fogo e arderá."

     S. Paulo, repetindo a doutrina dos provérbios (XXIV, 17, 18; XXV, 21, 22) aconselha que se dê de comer ao inimigo que tenha fome e de beber ao que tenha sede, para amontoar sobre a sua cabeça carvões acesos, isto é, para que Deus o possa castigar infinitamente (Epist. Rom., XII, 20).

     As máximas da moral evangélica explicam-se perfeitamente sob o ponto de vista teológico, isto é, da intolerância irmanada com o preconceito religioso. A Igreja Católica encoleriza-se contra os que lhe recriminam as suas perseguições religiosas e autos de fé, porque o fundamento destes se encontra na própria moral evangélica.

     É na Bíblia que se encontram as primeiras execuções e apologias da intolerância, com o auto de fé realizado por S. Paulo em Efeso, onde queimou grande número de livros, cujo valor, segundo os Actos dos Apóstolos, se elevava a 50000 dinheiros de prata (XIX, 19). E o apóstolo S. João testemunha que "o que se revolta e não permanece na doutrina de Cristo não possui a Deus, e quem não o segue, não deve ser recebido em casa e nem sequer saudado."

     Por fim, é ainda o mesmo Cristo dos Evangelhos que leva a cabo a instituição da excomunhão, colocando no número dos adversários da Igreja aqueles que com ela se não conformam (6).

     Pregando a intolerância e a perseguição religiosas, Cristo, ou antes, a casta sacerdotal que o inventou, não faz mais do que manter a tradição do Antigo Testamento, onde as incitações ao ódio teológico e às perseguições dos incrédulos, se encontra a cada passo (7).

     Mas, ao mesmo tempo, deixou a descoberto a origem meramente teológica do mito que deu lugar a Cristo, por mais que seja próprio da casta sacerdotal minar as máximas fundamentais da moral humana, para impor o domínio daquela sobre esta, animada pelo preconceito religioso e constituindo-se única e exclusiva depositária da verdade absoluta (8).

     As acções que os Evangelhos atribuem a Cristo, respondem, também, por uma parte, ao espírito sectário da teologia, e, por outra, à preocupação constante da vida ultramontana, que torturava constantemente o pensamento dos seus inventores.

     Recusa Cristo receber sua mãe e seus irmãos, que tinham ido procurá-lo, dizendo que os seus únicos parentes são os seus discípulos.

     Quando, aos doze anos, deixou a casa de seus pais, estes, fartos de pesquisas e cheios de vivas inquietações, encontraram-no, ao cabo de três dias, em Jerusalém, e Jesus responde secamente às doces advertências deles: "Por que me procurais?" (Lucas, II, 41).

     Quando, nas boda de Canaã, sua mãe lhe observa que os comensais já não têm vinho, responde brutalmente: "O que há de comum entre mim e ti, mulher?" (João, II, 1, 40).

     Quando seus irmãos o convidam a ir a Jerusalém, pela festa do Tabernáculo, diz que não, mas, apenas eles partem, logo parte também, às ocultas (João, VII, 2).

     Em muitos casos, entretém-se, enganando os que lhe falam, falando ele, por sua parte, para não ser compreendido (João, II, 21; III; IV; VI).

     Outras vezes, atribui a si próprio uma missão obscurantista (João, IX, 39). Outras, enfim, invectiva, sem razão alguma, os escribas e fariseus (Mateus, III, 7), porque se fazem baptisar, embora reconheça que são partidários da lei de Moisés, aconselhando que se faça tudo o que ela ensina (Mateus, XXIII).

     Declara que estes estão irremissivelmente condenados ao inferno, a fim de que todo o sangue inocente derramado sobre a terra desde Abel e Zacarias, caia sobre eles (Mateus, XXIII, 13), sustentando assim a doutrina da reversão das penas condenadas pelos próprios profetas.

     Quando Pedro teve notícia do fim que levava Jesus, fez voto de que tal não sucedesse. Porém, Jesus apostrofou-o,  chamando-lhe Satanás (Mateus, XVI, 22; Marcos, VIII, 32).

     Na parábola do mordomo infiel, aprova o furto (Lucas, XVI, 1-9), apoiando-se S. Irineu no versículo 9 do capítulo XVI de S. Lucas para reivindicar aos Isrealitas, que no Antigo Testamento, por conselho de Deus, da Bíblia e de Moisés (Êxodo, III, 21-22), tinham roubado aos egípcios os seus vasos de ouro e prata e suas vestimentas.

     Falando pacificamente ao povo, encoleriza‑se de improviso chamando hipócritas aos ouvintes, sem que motivo algum justifique a mudança de sentimentos (Lucas, XII, 56).

     Faz-se manter pelas mulheres dos outros (Lucas, VIII, 1-3). Cerca-se de gente faminta (Marcos, II, 16) e vagueia com os discípulos, sem respeitar a propriedade alheia (Marcos, II, 23).

     Faz atirar ao mar uma manada de porcos, sem pensar no prejuízo causado aos seus donos (Mateus, VIII; Marcos, V; Lucas, VIII). Ordena aos apóstolos que não saúdem ninguém quando em viagem (Lucas, X) e prega, em suma, o egoísmo (Lucas, XIV, 12), a hipocrisia e a vaidade (Lucas, XIV, 10).

     Poderíamos continuar, indefinidamente, demonstrando que o carácter e a doutrina moral de Cristo são, sempre, segundo a Bíblia, coisa bem diversa daquele ideal de perfeição que a Humanidade formou. Mas, para que continuar? Basta-nos ter provado que a moral de Cristo não é, não pode ser a moral de um homem, mas sim a de uma seita teológica, e, precisamente, da casta sacerdotal, preocupada, não com a Humanidade e com a realidade da vida, mas sim, de preferência, com o interesse da Igreja e com a salvação da alma.

 

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Notas:

(1) – Um dos fenómenos mais extraordinários da nossa época, rico de ensinamento, é o facto de apelarem para Cristo, tanto os revolucionários como os déspotas. E têm razão uns e outros. Umas vezes Cristo prega a resignação. S. Paulo chega a proibir que se reclame e faça justiça (Cor. VI – 7) e declara que, imanando de Deus todo o poder, serão por ele condenados todos os que oponham resistência (Rom. XIII, 1-‑2). Isto é para os déspotas. Para os revolucionários, e para os próprios anarquistas, Cristo não só exalta a pobreza, mas até considera o governo como um abuso, e todo o magistrado como o natural inimigo dos homens e de Deus (Mateus, X, 17 e 18; Lucas, XIII, 11). Não é, porventura, edificante essa duplicidade do cristianismo? Não serão ingénuos os que baseiam as suas esperanças e os seus privilégios numa moral tão absolutamente contraditória? Não se verá que semelhante moral não pode ser obra de um homem só?

(2) – Os defeitos da moral cristã são tão evidentes, que muitos católicos eruditos, não podendo negá-los e não querendo abandonar a fé, os colocaram entre as provas da divindade desta religião, fazendo o mesmo raciocínio que o hebreu Abraão, o qual, tendo visto em Roma as torpezas da corte pontífica, se fez cristão, dizendo que se esta religião pôde triunfar e subsistir apesar de tanta corrupção, é porque tinha a protecção de céu!

     Citemos, como exemplo, Nicolau Tomásio, que disse: "Soldados pagãos, contratistas gerais, mulheres a quem o mundo chama perdidas, um homem que mente e atraiçoa o seu amigo, outro que protege os que se dedicam a lapidar inocentes – eis os eleitos de Cristo! Esses querem que a história dos seus prodígios e das suas virtudes registe entre os antepassados do Salvador do mundo um fornicador, uma meretriz, uma adúltera, um rei traidor e homicida. Estes pensamentos humilham o espírito, mas abrem o coração à severidade para nós próprios, e à caridade para com o próximo!…".

(3) – O dogma da predestinação constitui um retrocesso em relação ao politeísmo greco-romano, que punha a justiça e a Humanidade acima dos próprios deuses, quando eles não respeitavam as leis da natureza e da consciência.

(4) – Marcos (XVI, 16). Noutros lugares, Cristo prega a moral independente do culto. Esta é uma outra das numerosas contradições irreconciliáveis, que provam que ele não é pessoa real, mas um objecto de especulações da mais disparatada das escolas teológicas.

(5) – Muitos são os exemplos do Antigo Testamento que podem aduzir-se. Limitar-nos‑emos a citar a instituição do bode expiatório (Levítico, XVI) e a da água da purificação. Em geral, todo o espírito que anima a Bíblia se baseia na moral religiosa. A Bíblia não mede o mérito ou demérito das pessoas, sob o ponto de vista das boas ou más acções, mas apenas segundo a sua devoção.

     Aqui temos, entre muitos outros, o exemplo de Achab. Nos capítulos que lhe são consagrados no Antigo Testamento, este rei de Israel é acusado de ímpio e tratado com a maior aspereza, apesar de não ter cometido as iniquidades de David e de Salomão, tão injustamente exaltados pela Bíblia. Pelo contrário, Achab é um bom rei, humanitário, generoso, magnânimo. Mas poupou a vida ao rei da Síria, Bebadad, que não acreditava no Deus da Bíblia, e por isso conquistou o ódio da casta sacerdotal. Temos, porém, David e Salomão, que cometeram toda a espécie de iniquidades, mas favoreceram a casta sacerdotal: logo a Bíblia os elevou até às nuvens. Mais ainda: Ehu, o infâme Ehu, era dado à leitura dos sacerdotes. Bastou isso para que a Bíblia o enaltecesse.

     Vejamos ainda, mais tarde, dois imperadores, Juliano e Constantino: o primeiro foi um modelo de virtudes, mas nada quis com o cristianismo. O segundo, que foi um miserável, assassinando a própria família, é enaltecido pela Igreja, só porque favoreceu a mesma Igreja.

(6) – Mateus (XVIII, 17). Aqui, Jesus, falando da Igreja, falta à fábula, porque a Igreja não podia ainda existir no seu tempo, pois que só devia ter vindo depois dele e por ele. Daqui se depreende que os Evangelhos foram escritos quando a Igreja estava já constituída, pondo-se na boca de Jesus o que ele não poderá ter dito, inventando-se, por isso, sem o menor escrúpulo.

(7) – Como tese geral, pode afirmar-se que o Antigo Testamento não é mais do que a escola das perseguições religiosas. Citemos, como exemplo, as perseguições seguintes: Moisés faz exterminar, por ordem de Deus, 24000 isrealitas, que tinham sacrificado perante o Deus Baal, e ordena a carnificina de todos os moabitas, incluindo mulheres e crianças, só porque tinham induzido os isrealitas à apostasia. Bastava o facto de alguém incitar a que  se adorassem deuses estranhos, para ser castigado com a morte.

     E o incitador devia ser morto, precisamente por seu pai, por seu irmão, por sua esposa ou por um seu amigo.

     O livro dos Judeus não é mais que uma alternativa perpétua de apostasias por parte dos hebreus e de horríveis castigos por parte do Deus bíblico. Elias manda exterminar 850 profetas de Baal. O profeta Eliseu ordena atrozes perseguições religiosas. Josias é bem visto por Deus, devido às suas perseguições ferozes contra os outros cultos. Nos Salmos, as perseguições religiosas são exaltadas, invocadas e abençoadas por Deus. Jeremias pede o extermínio dos infiéis. Outro tanto se lê em Isaías. O Eclesiástico é do mesmo parecer. Nos Macebeus, o sumo pontífice Matatias estrangula um herege sobre um altar.

     De tudo isto se vê que a Igreja Católica imitou bem os exemplos de violência e de intolerância da Bíblia. Fazendo-se perseguidora e inquisitorial, seguiu apenas a Bíblia judaico-‑cristã.

(8) – Na Bíblia há muitos exemplos a favor dos privilégios da casta sacerdotal. Assim, tendo os filisteus tomado a Arca do Senhor, o Deus da Bíblia mata-os, como quem mata moscas, pelo que eles se resolvem a entregá-la, de novo, aos isrealitas. Durante a viagem, a Arca Santa tem uma paragem entre os betsamitas, que a recebem com alegria e holocaustos. Mas, a meio desta adoração, o Deus da Bíblia faz morrer 50070 pessoas, simplesmente porque se tinham atrevido a guardar a Arca. Estes e outros exemplos demonstram que a Bíblia não é, de modo algum, uma obra histórica. É apenas uma obra teológica da casta sacerdotal.

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