Sobre inexistencia de Cristo

     Se Cristo nunca existiu, como e por que razão foi inventado ou imaginado?

     A esta pergunta responderá o presente capítulo do nosso trabalho, onde exporemos uma nova e luminosa prova contra a existência humana, real e objectiva de Cristo.

     Além disso, se demonstrarmos que outros personagens análogos, senão idênticos a Cristo, o precederam na história das ideias humanas ou nos tempos dos conceitos representativos; se provarmos que os predecessores de Cristo, os mesmos que deram a este todos os elementos da sua vida, do seu pensamento e da sua missão, não foram mais do que simples mitos – teremos demonstrado também que Cristo não é apenas uma cópia, mas um mito igual, de onde se concluirá, logo, que nunca existiu, a não ser na imaginação daqueles que têm acreditado nele.

     Começaremos por passar uma vista de olhos sobre a vida e milagres dos Deuses Redentores que precederam Cristo, e da qual veio o mito cristão, pois que Cristo não é mais do que a repetição do mesmo tema mitológico.

     A antiga Índia teve mais do que um Deus Redentor. Porque, nessa região, onde o maravilhoso e o sobrenatural têm a sua origem, o Deus Redentor Vixnu encarnou nove vezes, tomando forma humana para redimir a Humanidade do pecado original.

     Para o nosso trabalho só é interessante a oitava e nona avatar ou encarnação de Vixnu, que na oitava assume a pessoa de Crixna e na nona se encarna em Buda.

     Crixna, o Redentor indiano, nasce de uma virgem, a virgem Devanagui, e a sua vinda está vaticinada nos livros sagrados indianos (Aterva, Vedangas, Vedanta). O mesmo Vixnu, o Deus bom e conservador, aparece a Lakshmi, mãe da virgem Devanagui, para lhe revelar os futuros destinos daquela que estava para nascer e para lhe indicar o nome que devia impor à mãe do Redentor, recomendando-lhe, finalmente, que não una a sua futura filha em matrimónio com pessoa alguma, atendendo a que se deviam cumprir os desígnios de Deus (1). Isto tinha lugar uns 3500 anos antes da nossa era e no palácio do rajá de Madura, pequena província da Índia oriental. A menina recebe ao nascer o nome de Devanagui, conforme o que estava escrito.

     O rajá teve um sonho em que se viu expulso do trono pelo filho que nasceria de Devanagui. Por esta razão, o tirano de Madura fez encerrar Devanagui numa torre e soldar a porta para evitar toda a possibilidade de fuga, colocando ainda um valente guarda à vista da prisão. Tudo foi, porém, inútil. A profecia de Pulastia não podia ser impedida: "E o espírito divino de Vixnu atravessou as paredes para se unir à sua amada". Certa noite, enquanto a Virgem orava, uma música celestial veio de improviso deleitar os seus ouvidos, iluminou-se a prisão e Vixnu apareceu diante dela com todo o esplendor da sua divina majestade. Devanagui foi ofuscada pelo espírito de Deus, que queria encarnar-se, e concebeu. Na noite do parto, e enquanto o recém-nascido exalava os primeiros vagidos, um vento fortíssimo desmoronou o muro da prisão, e a Virgem foi transportada com o filho por um mensageiro de Vixnu, a uma cabana de pastores pertencente a Nanda.

     O recém-nascido foi chamado Crixna.

     Quando os pastores souberam do depósito que se lhes tinha confiado, prostraram-se diante do filho da Virgem e adoraram-no.

     O tirano de Madura, sabedor do parto e da fuga de Devanagui, encolerizou-se em extremo, e ordenou uma matança geral de todos os meninos, nascidos nos seus Estados durante a noite em que Crixna tinha vindo ao mundo.

     Um pelotão de soldados sai imediatamente para o redil de ovelhas de Nanda, mas Crixna escapa milagrosamente.

     São quase inenarráveis os episódios dos primeiros anos de Crixna, que saía sempre vitorioso dos perigos e laços que lhe armavam os que queriam a sua morte, homens ou diabos.

     Aos dezasseis anos Crixna abandona os seus parentes e começa a percorrer a Índia, pregando a sua doutrina. É o tempo dos seus grandes milagres: ressuscita mortos, cura leprosos, restitui o ouvido aos surdos e a vista aos cegos.

     Proclama-se a segunda pessoa da Trindade, isto é, Vixnu, descido à Terra para salvar o homem do pecado original. Os povos acudiam em massa, para o ver e ouvir os seus ensinamentos, adorando-o como a um Deus e dizendo: "Este é realmente o Redentor prometido a nossos pais".

     A sua moral é pura, elevada e completamente altruísta.

     Rodeia-se de discípulos que devem continuar a sua obra. Ensina por meio de parábolas.

     Um dia, em que o tirano de Madura enviara muitos soldados contra ele e contra os seus discípulos, estes, tomados de pânico, quiseram fugir. Especialmente Arjuna, chefe dos discípulos, que parecia abalado na sua fé. Crixna, que estava orando perto, ouvindo os seus lamentos, foi ter com eles, repreendendo‑os pela sua pouca fé, aparecendo-lhes com todo o esplendor da divina majestade e com o rosto de tal modo iluminado, que nem os discípulos puderam resistir a tanta luz. A seguir a esta transfiguração, os discípulos chamaram‑lhe Jezéus, que quer dizer – nascido da pura essência divina.

     Doutra vez em que se encontrava com os discípulos, acercaram-se dele duas mulheres da pior condição, que derramaram perfumes sobre a cabeça e o adoraram.

     Quando Crixna compreendeu que tinha chegado a hora de abandonar a Terra e voltar ao seio de quem o tinha enviado, separou-se dos seus discípulos, proibindo-lhes que o seguissem, transportou-se às margens do Ganges, mergulhou no rio sagrado. E ajoelhando em seguida, e orando, esperou a morte.

     Nesta posição foi atingido por uma flecha e pregado a uma árvore. O que o matou foi condenado a vaguear eternamente sobre a Terra. Quando se espalhou a notícia da morte do Redentor, os seus discípulos correram a recolher os sagrados despojos; estes, porém, tinham já desaparecido, porque ele ressuscitara e subira ao céu.

     A nona encarnação de Vixnu é aquela em que aparece como Buda.

     Foi revelada em sonhos a sua mãe a grandeza do filho e o ascendente que teria sobre todos os seus semelhantes.

     Escolhe, para nela nascer, uma casta principesca, assim como Cristo escolheu a de David, e desce à Terra. Isto acontecia 628 anos antes de Cristo.

     Por ocasião do seu nascimento, sucedem coisas maravilhosas: uma luz deslumbrante iluminou dezasseis mil mundos, os cegos viram, falaram os mudos, andaram os paralíticos, os prisioneiros recuperaram a liberdade, uma doce brisa refrescou e animou a terra, mananciais fresquíssimos rebentaram do seu seio, as florestas abriram-se em corolas multiculores e dos céus choveram lírios de aromas inebriantes.

     De suas altíssimas moradas, saíram espíritos para vigiar o palácio onde devia nascer a criatura e desviar dele e de sua mãe todos os males.

     Apenas nascido, põe-se logo de pé, diante dos espíritos e dos homens maravilhados, aparece no céu uma estrela brilhante, acodem reis a acordá-lo, e, da terra, surge a famosa árvore Bo, a cuja sombra devia transformar-se em Buda. Aquela árvore tem as folhas continuamente em movimento, com o que se quer significar o estremecimento comemorativo da sagrada cena de que foram testemunho, à semelhança do que dizem os sírios, acerca das folhas da trémula, que incessantemente se agitam em memória da crucificação de Cristo, de cuja árvore se diz ter sido feita a cruz.

     Entre os que, cheios de gozo, vão visitar a maravilhosa criatura, fala-se principalmente de um velho, muito semelhante ao nosso Simeão, que, em troca da sua vida devota, recebeu o dom das profecias.

     E, embora o seu espírito se alegrasse pelo futuro reservado a esse menino, não podia deixar de chorar, pensando que, em virtude dos seus anos, já não podia assistir aos triunfos dele.

     A mãe de Buda chama-se Maya ou Maia, e concebera-o de um modo maravilhoso, fora de toda a relação conjugal.

     Quando morreu, foi, por suas virtudes, recebida no céu, onde habitam os Nat.

     Buda cresceu formoso e dotado de extraordinária inteligência, maravilhando os doutores pela sua sabedoria. Por fim, abandonou o tecto paterno para levar a cabo a sua missão.

     Enquanto jejuava no deserto, à sombra da árvore, durante um período de 49 dias (7×7), foi tentado várias vezes pelo demónio, de quem sempre saiu vitorioso.

     Pregou pela primeira vez em Benares, convertendo à fé grandes e pequenos. A sua moral, como veremos, é muito superior à do Cristo.

     O mais célebre dos seus discursos ficou sendo chamado, em virtude do local onde foi pronunciado, O Sermão da Montanha, precisamente como o do Cristo. Depois da morte, aparece aos discípulos, em forma luminosa, com a cabeça circundada de uma auréola.

     Buda teve também um discípulo traidor, Devadata. Não deixou nada escrito. Os seus discípulos, porém, reunidos em conselho geral, recolheram todas as suas doutrinas. Entre esses discípulos houve dois de natureza diametralmente oposta: um, sério e crente em absoluto e cheio de zelo; outro, dulcíssimo por natureza e predilecto de Buda. O mesmo que Pedro e João, discípulos de Cristo.

     Buda, como Cristo, revoltou-se contra o poder soberano dos sacerdotes.

     Como os cristãos, os budistas estão divididos em várias seitas. No budismo encontram-se todas as práticas religiosas do cristianismo. E tanto assim é que, quando os missionários católicos se encontraram pela primeira vez com os monges budistas, acreditaram numa tentação do diabo, o qual teria sugerido a esses monges as práticas católicas, sem pensarem que os imitadores não podiam ter sido os budistas, muito mais antigos que os cristãos.

     Até no seu Papa (Dalai Lama) e na sua infalibilidade, os budistas precederam os cristãos…

     Mas não antecipemos o plano da nossa obra e continuemos narrando a história dos Deuses Redentores, precursores de Cristo.

     Do pouco que já dissemos se depreende, com uma evidência que não pode ser maior, que a Índia teve uma encarnação do Deus Redentor, 3500 anos antes de Cristo, e outra seis séculos antes, e que no seu Jezéus Crixna e no seu Buda existem já quase todos os elementos do mito cristão, aos quais se assemelham extraordinariamente.

     Quanto mais avançarmos na breve resenha dos Deuses Redentores, que precederam Cristo, mais claramente veremos que na época em que foi concebido esse mito, nenhuma necessidade havia de inventar, para o constituir como hoje se encontra.

     Vejamos agora Mitra, o Deus Redentor da Pérsia, que, como observa Stephanoni, é um ponto de passagem entre o avatar ou encarnação indiana, e a encarnação cristã.

     A diferença característica entre os dois antropomorfismos não é, na realidade, muito sensível. Ocorre, porém, considerar que na encarnação indiana é a divindade única, absoluta, que toma forma humana, sem vínculo algum de inferioridade, a respeito do pai celestial, ao passo que a encarnação cristã se distingue pela procedência do filho do pai. E nos livros sagrados da Pérsia, o Deus Redentor transforma-se em patrono de Ormuz, quase igual a Deus. Mitra é precisamente o intermediário entre Deus e os homens, como diz Plutarco.

     Além disso, como nota Maury (2), em Mitra realiza-se a união da ideia física da passagem das trevas para a luz, com a ideia moral da união do homem com Deus.

     Mitra, chamado também Senhor, nasce numa gruta, de uma virgem, como Cristo no presépio, de outra virgem. O dia em que nasce Mitra é o mesmo em que, depois, nasce Cristo: a 25 de Dezembro, isto é, no solstício de inverno.

     Este dia era o da festa principal da religião dos magos, segundo Freret e Hyde.

     A mãe de Mitra continua virgem depois do parto.

     Na esfera dos magos e dos caldeus, o signo zodiacal da Virgem tem, junto desta, um menino e um homem, que parece o pai putativo da criatura.

     O nascimento de Mitra anuncia-se astrologicamente por uma estrela, que aparece do Oriente, e pelos magos que lhe levam perfumes, oiro e mirra.

     Mitra, que nasce a 25 de Dezembro, como Cristo, morre, como ele, no equinócio da primavera.

     E, como ele também, teve o seu sepulcro, ao qual iam os seus iniciados derramar lágrimas.

     Um escritor famoso, Firmico, conta que os sacerdotes levavam ao túmulo, de noite, a imagem de Mitra, num andor, cerimónia que eles acompanhavam com cânticos fúnebres. Acendia-se o círio sagrado (círio pascal), ungia‑se com perfumes a imagem do Deus e um dos sacerdotes declarava solenemente que Mitra tinha ressuscitado e que as suas penas tinham redimido a Humanidade.

     Outra parte da vida de Cristo tinha sido já aplicada a Zoroastro, na mitologia persa. O reverendo Dr. Mills, eminente teólogo e sábio cristão, não pôde deixar de se render à evidência, declarando e reconhecendo que a tentação de Cristo figurava já na mitologia persa, como tentação de Zoroastro, e acrescenta: "Nenhum súbdito persa, que passeasse pelas ruas de Jerusalém, poderia deixar de reconhecer este maravilhoso mito".

     Mais adiante veremos a surpreendente semelhança que há entre os mistérios persas e os cristãos, semelhança tão extraordinária, que S. Justino, não podendo negá-la, nem sabendo explicá-la com razões favoráveis à ortodoxia, acusava o diabo de ter revelado aos persas os mistérios do cristianismo, antes do nascimento de Cristo!

     Continuemos com a resenha  dos Deuses Redentores.

     Os egípcios tinham também o seu Deus Salvador em Hórus, convertido depois em Osíris-Ápis ou simplesmente Serápis (3).

     Hórus também nasceu de uma virgem, no solstício de inverno, e morreu no equinócio da primavera, para depois ressuscitar, como Cristo. Hórus estava exposto, no solstício de inverno, sob a imagem de uma criatura, à adoração dos fiéis, "porque então – diz Macróbio – o dia era mais curto e este Deus não passava de um débil menino: o menino dos mistérios, cuja imagem os egípcios tiravam dos seus santuários todos os anos e num dia determinado (25 de Dezembro)". Deste menino proclamava-se mãe a deusa de Saís, na famosa inscrição: O Deus que pari é o Sol. O Deus Hórus teve também a sua fuga, levado pela virgem Ísis, montada sobre um jumento.

     O mesmo mito foi aplicado, no Egipto, ao rei Amenófis III, que convém lembrar aqui, por ser um documento da maior importância para demonstrar que, dezoito séculos antes de Cristo, os mistérios que se encontram no Evangelho de Lucas (I e II) eram conhecidos.

     Voltemo-nos agora para um quadro pintado numa das paredes do templo de Luxor, no qual se vêem as cenas da Anunciação, da Concepção, do Nascimento e da Adoração. Este quadro foi reproduzido por G. Massey, no seu livro Natural Genesis. Na primeira cena, o Deus Yath, o Mercúrio lunar (anjo Gabriel) saúda a virgem e anuncia-lhe que dará à luz um filho. Na cena seguinte, o Deus Knept (o Espírito) produz a concepção. Na cena da adoração, o menino recebe as homenagens dos deuses e as oferendas de três personagens (os Magos).

     Também Baco nascia no solstício de inverno, depois de morto descia aos infernos e ressuscitava, e cada ano se celebravam os mistérios da sua paixão no equinócio da primavera. Chamavam-lhe Salvador, como Cristo, e, como ele, realizava milagres curando enfermos e prevendo o futuro.

     Na sua infância ameaçam matá-lo, como Herodes a Jesus, numa emboscada. No templo de Baco, operava-se o milagre da mudança da água em vinho, tal como o fez Jesus nas bodas de Canaã.

     Igualmente Adónis, cujo nome significa meu senhor, tinha as suas festas que duravam oito dias (adónias), quatro de luto pela sua morte e quatro de alegria pela sua apoteose. Uma verdadeira semana santa, sem lhe faltar mesmo os santos sepulcros, onde as mulheres executavam lamentações fúnebres, em torno do Deus morto. Apagavam-se todos os círios, menos um (o pascal) que se escondia no altar, para de novo ser mostrado no dia da ressurreição. Depois, o Deus morto ressuscitava e o luto dava lugar à alegria.

     Estas festas continuaram a celebrar-se no mundo Antigo, e especialmente entre os fenícios, durante mais de cinco séculos, antes que se transformassem nas da paixão de Cristo.

     Um dos rasgos característicos dos Deuses Redentores é a sua descida aos infernos, durante o tempo em que estão mortos. Também antes de Cristo, e em idênticas condições, Baco, Osíris, Crixna, Mitra e Adónis, aproveitam o tempo em que estão mortos para fazer nova visita aos defuntos.

     Poderemos continuar a resenha dos Deuses Redentores, de idênticos caracteres e notórios representantes do Sol: como Ati na Frígia, Belenho entre os celtas, Joel entre os germanos, Fo entre os chineses, etc… Até agora temos demonstrado suficientemente que, quando Cristo foi concebido, já tinham existido muitos Cristos… antes dele.

     O leitor, neste ponto, deve, por si próprio, tirar as ilações e deduzir consequências espontâneas e naturais.

 

E. Bossi

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Notas:

(1) – No poema indiano Maabarata encontra-se outra anunciação, que parece ter servido de modelo à do Baptista, tão semelhante ela é.

(2) – Crenças e Lendas da Antiguidade.

(3) – Segundo a lenda egípcia, no dia em que nasceu Osíris "uma voz gritou, do alto do céu, que tinha nascido o Senhor de todo o mundo" (Plutarco – Ísis XIII). O evangelista Lucas apenas copiou  a lenda egípcia.

Poema de Gonçalves Correia

O MEU DEUS
 
Se deus está na flor que encanta e seduz,
No se filigranado, eterna maravilha, Na pétala graciosa que a vida nos conduz,
Na estrela misteriosa que nos encanta e brilha,
Eu, admirador do grande Artista,
Confesso não me arrepender
Se me disser deísta!
 
Porem, se é o tal Deus da madre igreja,
O cruel Deus papão das sacristias,
O Deus que sobre nós, fero, despeja
Trabuzanas e raios todos os dias;
Se é esse o Deus que manda as trovoadas,
Que ajuda o padre lorpa e o sacrista
E deixa casas pobres arrasadas,
Então, caros irmãos, não sou deísta!
 
Gonçalves Correia