Anarquia em Espanha

MAS DE LAS MATAS E A SUA COMARCA

 

Publicamos um excerto do livro "Colectividades Libertárias em Espanha", de Gastón LevaL Neste livro,  descreve-se como, em várias regiões de Espanha, durante a Revolução de 1936-39, foi posto em prática o comunismo anarquista, através dum vasto movimento social organizado que pôs verdadeiramente em causa os alicerces do capitalismo e do Estado e que demonstrou que, ao contrário do que afirmam os vários defensores desta sociedade autoritária e exploradora, o comunismo libertário, ou anarquista, é perfeitamente viável.

 

 

Ao norte da província de Teruel, Mas de las Matas, com 2.300 habitantes, é o centro de uma comarca composta de 19 povoações. As mais importantes são Agua Viva, Mirambel (com 1.400 habitantes), La Ginebrosa (com 1.300). No princípio de Maio de 1937, apenas seis delas se encontravam integralmente socializadas; quatro estavam-no quase por completo; cinco, meio socializadas. Três estavam a organizar-se e uma última ainda hesitava.

 

Nesta comarca, a pequena propriedade encontrava-se bastante difundida, o que não favorecia a formação de sindicatos operários e o que explica por que razão as ideias anarquistas aí se tenham estabelecido desde o início do século. Embora a zona agrícola fosse relativamente rica, graças ao regadio, nalgumas povoações, privadas de água, a vida era, em geral, miserável. Tendo os grupos libertários de Mas de las Matas actuado quase sem interrupção, é a última geração dos seus elementos que agora está à frente da organização colectiva da aldeia.

 

Pode dizer-se que, em relação ao conjunto das povoações, a situação económica dos nossos companheiros de Mas de las Matas era, sem dúvida, a de privilegiados. Mas a revolução que puseram em prática tinha, principalmente, um carácter moral, pois colocavam a justiça acima dos interesses pessoais. São anarquistas cultos, modestos e simples. A sua personalidade revela-se no decorrer de uma conversa, assim como na obra que, modesta como eles próprios e, no entanto, sólida, estão a realizar.

 

Durante a monarquia predominavam aqui as tendências liberais. A República originou algumas mudanças, mas desiludiu a maioria da população, a qual se virou para a esquerda revolucionária. Foi assim que, em 1932, se formou o primeiro sindicato de tendência libertária aderente à CNT, e que, no ano seguinte – numa intentona

malograda – foi proclamado o comunismo libertário. A Guarda Civil acabou com este primeiro ensaio em menos de dois dias e o sindicato foi encerrado até à véspera das eleições de 1936, que não impediram que o ataque franquista se produzisse no mês de Julho seguinte.

 

Não houve luta e, não se tendo instaurado nem o fascismo nem a república, os nossos companheiros propuseram que se criasse a Colectividade Agrária de Mas de las Matas. A iniciativa foi aceite por unanimidade numa assembleia de carácter sindical. No entanto, nem todos os proprietários estavam filiados no sindicato. Tinha de se proceder com eles de forma especial. Assim se fez, estabelecendo-se uma lista de adesões voluntárias que, em quinze dias, reuniu 200 famílias. Durante a nossa visita, este número aumentou para 550, das 600 que compunham a totalidade. As que ficaram de fora pertenciam à UGT e praticavam a exploração individual.

 

A mesma norma é observada em toda a comarca. Tanto se pode aderir à colectividade como continuar a trabalhar individualmente a terra que se possui. Os vários graus de socialização realizados nas diferentes povoações provam que esta liberdade é efectiva.

 

Em nenhuma das povoações da comarca há regulamentos ou estatutos de colectividades. Politicamente, aplica-se um conceito anarquista integral. Todos os meses, a assembleia geral dos colectivistas indica à Comissão as normas a seguir. Nada da rigidez dos códigos, apenas a flexibilidade da vida e os acordos concretos sobre problemas também concretos.

 

Não se pode dizer que, por se verificar esta característica, tudo seja caótico. As nossas recordações de Mas de las Matas imediatamente nos fazem evocar a feliz Arcádia de que falaram os poetas. Era evidente a tranquilidade e a felicidade, no andar das pessoas, no aspecto das mulheres sentadas no passeio, tecendo e conversando placidamente diante das casas. É lógico supor que subjacente a esta tranquilidade existia uma boa organização da vida. Analisemo-la.

 

Foram constituídos 32 grupos de trabalho, de importância variada segundo as especializações agrícolas e as dimensões dos campos mais ou menos limitados pelo capricho do relevo. Cada grupo tem a seu cargo uma zona de regadio e outra de sequeiro. Reparte-se assim, equitativamente, o agradável e o menos agradável.

 

O regadio permite aos habitantes de Mas de las Matas obter hortaliças e frutas. Menos afortunados, os outros povoados apenas conseguem produzir cereais, sobretudo trigo, e azeitonas. Quanto ao trabalho, encontra-se distribuído por todas as colectividades, por grupos com os seus delegados; no cume – se se pode empregar esta palavra – está a comissão administrativa. E tal como os delegados de Mas de las Matas se reúnem semanalmente para decidirem quais os trabalhos a serem realizados, o mesmo fazem os delegados nas outras povoações.

 

Todas as colectividades da comarca coordenam, deste modo, os seus esforços.

 

Em Mas de las Matas não foi possível aumentar a superficie de terras cultivadas. As terras de regadio já eram utilizadas por completo. Mas parte dos terrenos de sequeiro, que até então tinham sido destinados para pastos, pode agora ser aproveitada para a produção de cereais, existindo nas montanhas pastos naturais suficientes para o gado se alimentar. Contudo, não se pode semear trigo, aveia ou milho depois de uma primeira lavragem da terra, apenas se pode prepará-la para o próximo ano. Trinta hectares já foram amanhados para esse fim.

 

Estes esforços intensificaram-se com o regresso dos milicianos da frente e é de temer, dizem os meus companheiros, que dentro de dois anos surja uma grave dificuldade: a de dar vazão ao excedente de trigo. No entanto… é difícil contrariar o seu entusiasmo, igual ao que encontro em toda a parte.

 

Mais fácil foi intensificar a criação de gado. O número de cabeças de carneiros e ovelhas aumentou 25%. O número de porcas para reprodução passou de 30 para 61; as vacas leiteiras que eram 18, são actualmente 24, e são albergadas num grande estábulo construído pela colectividade. O número de porcos é também muito superior ao anterior, mas, tendo faltado tempo para construir uma pocilga de grandes dimensões, compraram­-se animais jovens em grande quantidade, tendo sido distribuídos à razão de um ou dois por família. Quando se fizer a matança, a carne será repartida e salgada segundo as necessidades de cada lar.

 

Porém, a produção não se encontra limitada à agricultura e à criação de gado. Neste centro comarcal, da mesma maneira que em todos os centros mais ou menos importantes, desenvolveram-se actividades diversas: construção civil, fabrico de alpergatas, matadouro, alfaiataria, barbearia, padaria, etc. Cada uma delas constitui uma secção da colectividade geral e trabalha para todos.

 

Se uma secção necessita de comprar ou de consertar determinadas ferramentas, dirige-se, por intermédio do seu delegado, à comissão administrativa, a qual lhe entrega um vale para o delegado dos ferreiros que efectuam o trabalho requerido. O pedido é, ao mesmo tempo, registado no livro da secção da metalurgia. Se uma família necessita de móveis, dirige-se também à secção administrativa, que lhe entrega um vale para o delegado dos marceneiros. Sem este vale, que simultaneamente constitui uma autorização e um controlo do trabalho, este não seria efectuado. É deste modo que as actividades de cada grupo de trabalho e os gastos de cada família são registados.

 

Não se usa o dinheiro nem qualquer moeda local nas povoações da comarca. Assim se explica, sem dúvida, que a socialização do comércio tenha sido um dos primeiros passos dados. No entanto, não foi absoluta. Encontrámos alguns comerciantes obstinados, como velas que se apagam, no seu isolamento. Os armazéns comunais substituem, no seu conjunto, o antigo processo de distribuição.

 

Vejamos mais detalhadamente a estrutura de uma povoação colectivi­zada. Toma-se difícil dar por escrito uma ideia suficientemente elucidativa deste amplo movimento que põe em prática a socialização agrária. Em Mas de las Matas, como em cada uma das centenas de povoações organizadas colectivamente, a nossa atenção fixa-se em letreiros onde, sobre as cores geralmente vermelha e negra, e marcadas com as iniciais CNT-FAI, se lêem inscrições como as que citamos ao acaso: Armazém Comunal, Matadouro Comunal, Correaria Colectiva, Carpin­taria Colectiva, Padaria Comunal, Alfaiataria Colectiva, Ferraria Comunal, Fábrica Colectiva de Bolachas, etc.

 

Aqui, deparamo-nos com o Armazém comunal de alimentação e ferragens, máquinas e outros objectos. Além, com o Depósito comarcal de adubos químicos e de cimento, e um Armazém de tecidos e vestuário, muito bem abastecido. Na loja de um antigo fascista desaparecido, cacique da povoação, distribuem-se roupas aos habitantes do lugar e às colectividades da comarca. E eis aqui a secção de abastecimento, na qual se entrega aos individualistas os vales por eles solicitados, e onde se regista num ficheiro o consumo de roupas feito por cada família.

 

Nesta destilaria extrai-se álcool e ácido tartárico do bagaço de uva forne­cido por várias povoações, que em conjunto constituem a Comissão Administrativa da fábrica. Esta comissão reúne-se periodicamente. Entramos nesta fábrica e mostram-nos as novas instalações, construídas para se aumentar a produção de álcool de 96°, necessário ao tratamento dos feridos, nas frentes de luta.

 

Na alfaiataria, operários e operárias cortam e cosem as roupas para os camaradas de todas as colectividades da comarca. Prontos para a confecção, os cortes estão classificados e distribuídos por várias estantes. Cada um tem uma etiqueta na qual está inscrito o número e as medidas correspondentes do indivíduo a que se destina.

 

As mulheres vão abastecer-se de carne num bonito estabelecimento revestido de mármore e de mosaico. O pão, que antes se fazia em casa, sem comodidade, duas vezes por semana, é agora amassado diariamente nas padarias colectivas.

 

No café, todos podem tomar dois copos de malte, dois refrescos ou duas gasosas por dia.

 

Visitemos os arredores do povoado. Vamos encontrar os viveiros onde dois milhões de plantas hortícolas são esmeradamente preparadas por uma família que,  anteriormen­te, ganhava muito dinheiro com a comercialização desta produção, e que aderiu à colectividade desde o seu início.          As        plantas serão transplantadas para a horta local ou de outras povoações.

 

Nesta oficina de costura, confecciona-se roupa de mulher. Além disso, há raparigas doutras povoações que aqui vêm aprender para, mais tarde, coserem a sua roupa e a dos seus filhos.

 

Um letreiro chama-nos a atenção: "Livraria Popular". Trata-se de uma biblioteca em cujas prateleiras se encontram seis, oito, dez exemplares de Fábricas colectivizadas de pão cada um dos livros de sociologia, de literatura, de divulgação científica que se pensa ser útil colocar ao alcance de todos, inclusive dos individualistas. Noutras estantes, mas em maior número, estão livros para crianças, obras de todos os tipos: história, geografia, geometria, aritmética, gramática, livros de contos e narrativas, novelas, cadernos e admiráveis colecções de desenhos, cujos modelos estão perfeitamente ordenados e organizados segundo as normas mais recentes.

 

Nesta colectividade geral, cada secção trabalha para as restantes; os esforços unem-se, o espirito de solidariedade preside a todos os empreendimentos. Contudo, tem-se a preocupação de não matar a iniciativa individual, a qual, de resto, pode existir desde que não se dedique à exploração de outrem. Isso iria contra o temperamento espanhol, no qual estão amalgamados a vontade pessoal e um profundo sentimento do dever. Assim, deixou-se que cada família tenha um pedaço de terra onde cultiva o que entender, o que permite o livre consumo de hortaliças. Os outros alimentos são distribuídos segundo as reservas disponíveis. Homens, mulheres e crianças recebem a mesma quantidade, estipulada pelas assembleias da colectividade, e podem, sempre na medida permitida pelas dificuldades económicas que a Espanha atravessa, trocar livremente um artigo por outro. O racionamento não constitui, portanto, uma regulamentação rígida, que obrigue a aceitar ou recusar uma coisa, sem compensação.

 

Nos primeiros anos, a proporção do consumo ­alimentação, vestuário, calçado, etc -estava assinalada num cartão por família, mas a seguir decidiu-se utilizar a caderneta standard adoptada no Congresso de Caspe e editada pela Federação Regional de Colectividades.

 

Foi também limitada a distribuição de roupa, máquinas e outros bens adquiridos na Catalunha, na medida em que, apesar de haver bens suficientes para trocar, é necessário um grande esforço para apoiar a frente de guerra. Isto não implica, porém, que se tenha suprimido completamente a distribuição de roupa. Para obter a roupa de que necessitam, os colectivistas têm agora à sua disposição recursos superiores, em regra, aos de que dispunham ante­riormente. Como exemplo, tomemos uma família composta por pai, mãe, um filho de idade compreendida entre seis e catorze anos, e um segundo filho com menos de seis anos de idade. A esta família é anualmente atri­buído um conjunto de bens equivalentes, em valor­-moeda, a 215 pesetas: 75 pesetas para cada um dos adultos, 40 para o filho mais velho e 25 para o mais novo. Quantas famílias camponesas de Espanha poderiam gastar, anteriormente, esta quantia anual em vestuário? E não nos esqueçamos que este cálculo por família não impedia que cada família escolhesse o seu equivalente em roupas de acordo com as preferências de cada lar.

 

O médico e o farmacêutico também fazem parte da colectividade, estando as suas actividades ao serviço de todos. Vivem em condições idênticas aos demais, embora disponham de recursos específicos para poderem continuar a estudar e adquirir publicações, revistas, livros e outros materiais necessários ao seu trabalho.

 

Além da Biblioteca Pública, que empresta livros ao domicílio, existem a biblioteca do Sindicato e a das Juventudes Libertárias. A escola é obrigatória até aos catorze anos. Uma escola para 40 crianças, que até então não tinham tido a possibilidade de estudar, foi instalada num conjunto de "casas agrícolas" [«masías» no original­ N. T.]. Em Mas de las Matas foram preparadas duas salas de aula para poderem receber, cada uma delas, 50 crianças com idade inferior a oito anos, cuja educação foi confiada a duas raparigas que tinham frequentado cursos superiores numa cidade cujo nome desconhecemos. Esta inovação teve também como objectivo a libertação mútua de mães e filhos durante várias horas por dia.

 

Os espectáculos públicos são gratuitos, tanto para os colectivistas como para os individualistas.

 

Inclusive quando, por ordem expressa do governo, o Conselho Municipal foi reconstituído, a alma da povoação continuou a ser a colectividade. O próprio sindicato tornou­-se um organismo quase inútil, foi quase totalmente esvaziado das suas antigas funções. O novo organismo tomou-se predominante na estrutura da comarca. Vejamos agora como funciona.

 

O Comité Comarcal, que reside em Mas de las Matas, foi nomeado por uma assembleia de delegados de todas as colectividades. Tem como missão coordenar os esforços na produção, organizar o trabalho à escala geral sempre que seja necessário, tratar das relações com as outras comarcas ou regiões e organizar as trocas.

 

Segundo as normas estabelecidas em toda a região de Aragão, nenhuma colectividade pode negociar por sua própria conta. Com esta norma, procura-se evitar a concorrência imoral e centralizar as aquisições de produtos, que poderão, assim, ser obtidos longe da colectividade, nas próprias fábricas, em melhores condições de qualidade e de preço. Ao mesmo tempo, isto permite intensificar as relações económicas com a Catalunha e o Levante.

 

Cada colectividade agrícola comunica ao Comité Comarcal a lista e quantidade de produtos excedentários de que dispõe, e pede, ao mesmo tempo, aquilo de que necessita, podendo consultar, em Mas de las Matas, o registo contabilístico onde fica anotado o duplo movimento de produtos e bens.

 

O Comité Comarcal sabe, com exactidão, quais são as reservas de cada povoação, em azeite, vinho, trigo e carne. Se uma delas não tem vinho em quantidade suficiente e o pede, o comité contacta a povoação que o pode disponibilizar. Se outra povoação necessita de azeite, o comité põe-na em contacto com a povoação que estiver em condições de satisfazer o seu pedido. As povoações que pediram determinados produtos darão outros em troca, cuja equivalência é calculada em pesetas, segundo os preços da altura. Por outro lado, se a povoação que forneceu o azeite não necessita do vinho dado em troca, pede ao comité outros artigos que este entrega, armaze­nando o vinho em Mas de Ias Matas, para ser trocado mais tarde, dentro da comarca ou fora dela. Em suma, o Comité Comarcal é o órgão regulador da distribuição entre povoações.

 

Não há qualquer dificuldade na aplicação deste sistema geral de compensação. O único inconveniente poderia residir em reminiscências do espírito capitalista e proprietário, segundo o qual uma povoação que enfrente grandes difi­culdades por razões estranhas à sua vontade deverá atravessar um período difícil mais ou menos longo. De maneira nenhuma. Acaba de acontecer algo que pôs o sistema à prova. As capacidades económicas de Seno e de La Ginebrosa foram, este ano, anuladas por uma tempestade de granizo. Ficou tudo, ou quase tudo, arrasado. Em regime capitalista, isto teria significado miséria e fome, com emigração dos homens para a cidade. Num regime no qual a economia estrita predomina sobre a solidariedade, as dívidas e os empréstimos contraídos para fazer frente à situação teriam condenado essas populações à miséria durante anos. No nosso regime de solidariedade libertária, a dificuldade ultrapassa-se com a ajuda-mútua, o contributo, o esforço fraterno de todos. Obteve-se tudo aquilo que era necessário para poderem voltar a semear, plantar e colher, e para viverem enquanto os frutos da terra não brotassem de novo, o que permitiu resolver o problema sem hipotecas ruinosas que teriam comprometido o futuro.

 

 

Esta revolução moral mereceria uma análise mais demorada, porque o mundo novo que se criou e se continua a criar fez nascer um espírito que exalta os sentimentos mais nobres que o coração do homem pode albergar. Isto traz-nos à memória algo singelo, mas significativo, que nos aconteceu precisamente em Mas de las Matas. Tínhamos ido ver, fora da povoação, uma piscina que os rapazes e raparigas estavam a construir num local profundo, ladeado, dum lado por uma casa particular e do outro por uma elevação pronunciada do terreno. Lá no fundo, os nossos construtores atarefavam-se alegremente, manejando pás e picaretas. Na nossa frente, na parte mais alta, havia um caminho que não podíamos ver mas cuja existência adivinhámos quando vimos surgir três homens, três agricultores de alpergatas e enxada ao ombro, caminhando com passo firme, sorridentes e confiantes. Viram-nos, como também viram os rapazes mais abaixo e, andando sempre, levantaram a mão amistosamente, saudando-nos com voz forte e vibrante, com a convicção que parecia sair dos seus peitos: «Saúde, companhei­ros!». Respondemos: «Saúde, companheiros!» e o mesmo fizeram os jovens que estavam mais abaixo. Essas duas palavras significavam que éramos todos irmãos, que a mais plena confiança existia entre nós, a confiança de cada um dos homens na sociedade, nos seus semelhantes; que tinha desaparecido aquilo que nos opunha uns aos outros; que já não existiam rivalidades, antagonismos, temores, hipocrisias, invejas, falsidades, ardis. Que éramos, todos, verdadeiramente irmãos… A caneta não consegue exprimir a sonoridade vibrante dessa meia dúzia de sílabas: «Sa-ú-de com-pa-nhei-ros!», tão cheias de um conteúdo novo, intenso, cálido, que continuam a ressoar-me nos ouvidos, com o fervor que guiava os construtores do mundo novo.

 

Gastón Leval

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