!º de Maio

1º de Maio: Dia de Luta!!!

 

A comemoração do 1º de Maio como Dia do Trabalhador teve a sua origem na jornada de luta dos trabalhadores de Chicago em 1886 pelas oito horas de trabalho diárias e por melhores condições de trabalho. A partir de então, o 1º de Maio foi erigido como um dia de luta dos trabalhadores de todo o mundo pela sua emancipação. No entanto, o Estado, o Capital e os sindicatos reformistas vendem-nos este dia como se de uma festa se tratasse, comemorado com desfiles e romarias, como se não houvesse já motivos para os trabalhadores se erguerem em luta contra a exploração a que estão diariamente sujeitos.

A Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.), a internacional das organizações anarco-sindicalistas, prolonga a tradição de luta sindicalista revolucionária do movimento operário, propondo a auto-organização dos trabalhadores, independente face aos sindicatos reformistas, atrelados aos interesses partidários, domesticados pelo Estado e pelo Capital e tantas vezes traidores da mesma classe trabalhadora que dizem defender. Os sindicatos e grupos de propaganda anarco-sindicalista da A.I.T. organizam-se sem chefes nem burocratas, numa base orgânica em que todos estão em pé de igualdade, em que não existem funcionários sindicais e em que as funções são rotativas e revogáveis a qualquer momento. Defendemos como forma primordial de luta dos trabalhadores a acção directa, ou seja, a luta dos próprios trabalhadores, pelos seus próprios meios, pelos seus próprios objectivos, fora de qualquer acção representativa partidária, renunciando à possibilidade de conciliação entre o Trabalho e o Capital.

Nos dias de hoje, todos sentimos na pele o agravamento das condições de exploração dos trabalhadores. Cada vez mais humilhados, os verdadeiros produtores de riqueza são responsabilizados pelos governos e pela classe patronal pela “crise” em que o país vive. Estes, com o pretexto do “crescimento económico” e da “unidade nacional”, sujeitam cada vez mais os trabalhadores a condições agravadas de exploração e humilhação laboral. Todos conhecemos o ataque sobre os trabalhadores que representou o novo Código do Trabalho, assim como as condições de precariedade a que estão sujeitos cada vez mais jovens trabalhadores, obrigados a trabalhos extenuantes, inúteis e repetitivos mediante contratos que, quando existem, chegam a durar uma simples semana. Da mesma forma, conhecemos o drama de trabalhadores que consagraram a sua vida às fábricas em que trabalharam, tantas vezes recebendo salários miseráveis, e que se vêm subitamente abandonados pelos patrões, mercê das falências fraudulentas e das deslocalizações, com poucas perspectivas de voltarem a encontrar um meio de sustento. Conhecemos também as condições em que trabalham em Portugal os imigrantes de outros países que, tal como fizeram e continuam a fazer tantos portugueses, se viram forçados a procurar melhores condições de vida num país estrangeiro, obrigados muitas vezes à clandestinidade. Ao mesmo tempo que tudo isto se verifica, assistimos a um incremento cada vez maior das desigualdades sociais, à ostentação cada vez mais nojenta do luxo de uns poucos e ao crescimento exponencial dos lucros dos grandes grupos económicos e do capital parasitário.

Hoje, como nunca, numa época em que o Capital não conhece quaisquer fronteiras, utilizando as dos Estados nacionais apenas como forma de dividir e pôr em competição os trabalhadores de diversas regiões, faz sentido a ideia de uma associação internacional que una mulheres e homens trabalhadores de todo o mundo numa mesma luta, auto-organizando-se na batalha pela defesa e melhoria das suas condições de vida e pelo derrube do capitalismo e do Estado, para que, enfim, desapareçam da face da Terra os privilégios que uns tantos mantêm à custa da miséria da maioria da população mundial e para que acabe de uma vez por todas a exploração do homem pelo homem.

Abaixo o capitalismo! Viva o sindicalismo revolucionário! Viva o comunismo libertário!

 

27/Abril/2006                 Associação Internacional dos Trabalhadores – Secção Portuguesa

 

                                       ( Apartado 50029  /  1701-001 Lisboa       e-mail:aitport@yahoo.com )

Manifesto contra as comemorações dos trinta e tal anos do 25 de Abril

 

 

Trinta e tal anos depois ainda cá estamos de pé, tentando – a despeito da irrisória fragilidade dos nossos meios – estor­var o mais possível o triunfalismo e a “pompa e circunstância” das comemorações deste aniversário do 25 de Abril; até porque, de 25 de Abril de 1974 a 25 de Abril de 2006, é tempo mais que suficiente para a mitificação, a mentira, o esquecimento e o adormecimento da consciência crítica.

 

Nos palcos improvisados (ou premeditados) do espectáculo comemoracionista, isto é, na Assembleia da República, no Palácio da Presidência, nas Assembleias Distritais, nas Câmaras Municipais e nos desfiles militares, estão presentes os nossos adversários e inimigos de sempre: não mais os obsoletos “mosqueteiros do rei”, mas a corte habitual de generais e almirantes republicanos, de prebendados e proxenetas da democracia representativa, de grandes capitalistas e seus homens de palha, de burocratas, tecnocratas, gestores, bufos e polícias. Desta feita, segundo consta, com o patrocínio da Coca-Cola e, muito possivelmente também, da Mercedes-Benz, da Toyota, da General Motors, do Papa, da seita Moon, da Maçonaria, da Internacional Social-Democrata, do Fundo Social Europeu, do Fundo Monetário Internacional, da CIA e do FBI …

 

Apesar das inevitáveis trocas de galhardetes e outras picardias entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro, ou entre tenores socialistas e sociais-democratas, acerca da “democracia de suces­so”, todos dizem substancialmente o mesmo: que as Forças Armadas, facto inédito na História, “liber­taram” o bom povo português, depois de o terem bem, aferrolhado durante cerca de 50 anos; que já temos “liberdade de expressão", quer dizer, liberdade das cordas vocais, embora a imensa maioria não tenha qualquer meio para exprimi-la; que a democracia ainda não é perfeita, mas que para lá se cami­nha a passos largos, a despeito da permanente insatisfação humana e da perene imperfeição do “Homem”; que o “socialismo de distribuição”, segundo a fórmula do impagável filósofo Sottomayor Cardia, ainda há-de fazer das suas, sobretudo quando Ele chegar à Presidência da República ou da sua Junta de Freguesia; que os aspectos liberais do socialismo democrático, bem como os aspectos sociais do liberalismo avançado, têm que convergir numa grande corrente unitária de pensamento e acção, conquanto salvaguardando sempre as possibilidades de alternância no poder e o saudável “pluralis­mo” das outras correntes de “amigos do tacho”; etc., etc. E todos patenteiam a alegre despreocupação e as fauces rosadas de quem está bem instalado na vida e tem sobejas razões para brindar.

 

Nem troca-tintas nem vira-casacas, e tentando superar a atitude meramente estética da “náusea pura”, vamos lá descortinar as razões de tanto comemoracionismo beato, de tanta e tão elaborada men­tira ideológica; precisamente porque, a vinte anos de distância, é perfeitamente “Inatural” que os princi­pais polichinelos e os títeres subalternos estejam completamente desmemoriados, ou então tenham a memória demasiado “selectiva” …

 

 

A "revolução" de 25 de Abril: algumas recordações para uso dos "distraídos" e dos "amnésicos"

 

 

Quando, após a tentativa frustrada das Caldas da Rainha (16 de Março de 1974), eclodiu o golpe de Estado militar de 25 de Abril do mesmo ano, entrou na cena política portuguesa um Exército profundamente desmoralizado pelos “acidentes” da guerra colonial, pelo número crescente de estropia­dos e mais ainda pela enorme hemorragia de efectivos que o crescimento galopante do número de desertores e refractários constituía. Com efeito, umas Forças Armadas que dispunham de um contin­gente regular de cerca de 200.000 homens, viram, completamente impotentes, debandar para o estrangeiro, ao longo dos anos, cerca de 150.000 combatentes potenciais. Só no que diz respeito à incor­poração de 1973/74, consta que cerca de 16.000 dos 30.000 mancebos mobilizáveis preferiram pôr-se ao fresco a apresenta-se à inspecção médico-militar. Comparativa e proporcionalmente, o número de desertores norte-americanos da guerra do Vietname, de russos da guerra do Afeganistão ou de cubanos da ulterior guerra de Angola era uma brincadeira de crianças.

 

Ante tal enormidade, tanta recusa em travar um combate que não era o seu, que podia a tropa fazer? Ele bem havia, é certo, dentro da fauna militar, os pleonásticos e patéticos fascistas e corpora­tivistas incondicionais, os yes men de Salazar e de Caetano, que haviam concluído chorudos negócios à sombra do Estado Novo e eram os aliados e defensores naturais das grandes famílias; assim como os mercenários profissionais que amealhavam uns cobrezinhos com as sucessivas “comissões de serviço” e outras alcavalas, enquanto mandavam para a linha de fogo ou para o mato os magalas e galuchos mobilizados à força e os oficiais milicianos. No entanto, pouco a pouco, já cansada de se agarrar à “ração de combate” e à garrucha, tinha despontado uma casta nova, mais hipócrita, mais “civilizada”. Pensava esta, de maneira mais prudente, aproveitando a boleia spinolista de “Portugal e o futuro” e a desorientação do Estado-Maior: “Já ganhámos os nossos galões nas campanhas de Mueda, Nambuangongo e tantas outras, cortando cabeças, aterrorizando o indígena e amontoando-o em aldea­mentos infames; porque não continuar a carreira, com maior proveito e menor risco, num Portugal mais democratóide, ”pluralista” e, europeu, liberto do anacronismo colonial e imperial old style?”

 

Uf, já não era sem tempo! Claro que foi esta derradeira posição, mais pragmática e “moderna”, que levou a melhor, tentando demonstrar à posteridade que a tropa fandanga não pensa apenas com as botas e ficando transfigurada nos compêndios escolares por aquilo a que se chamou “espírito de Abril”. Esse “espírito”, evidentemente, digam. lá os poetas líricos o que disserem, ainda hoje não perdoa aos desertores e refractários o facto de terem obrigado os militares "progressistas" a darem o golpe das flo­res; até porque, para o efeito, coitados, tiveram que desobedecer aos seus superiores hierárquicos e, para um oficial que respeita a farda que enverga, desobedecer é um acto subversivo e uma verdadeira “desonra”…

 

Concomitantemente, a velha classe capitalista “nacional” – muito labrega, muito caseira -, secundada pela classe média mais arguta, pensava confusamente que o maná do mercado protegido, a ficção do escudo forte, a protecção do big brother norte-americano, a miséria reinante, os baixíssimos salários, a aparente docilidade do operariado e do campesinato portugueses e a expulsão da massa excedentária para a emigração legal ou clandestina não seriam epifenómenos eternos. O incipiente capi­talismo “nacional” necessitava de alcançar os seus pares internacionais, de se internacionalizar, de alte­rar a sua composição, de vencer as baixas cadências, de se reestruturar, de sacrificar – se necessário – os galhos doentes e obsoletos, como, por exemplo, os parasitários e semi-falidos latifundiários alentejanos, para revitalizar a seiva da árvore das patacas e do lucro. Numa palavra, necessitava da sua perestroika.

 

Essa “perestroika” tinha, pois, como objectivo despoletar as tensões de um sistema caduco que se podia desmoronar perigosamente, assim como desembocar numa mera sucessão de regimes equiva­lentes. Seria, ao mesmo tempo: uma espécie de jogada de antecipação, em relação às greves espon­tâneas, incontroladas e sem pré-aviso que eclodiam pelo país fora, no período que precede a “revolução dos cravos”; e uma espécie de vacina contra certos acessos e excessos que pudessem empolgar o corpo social. Bem ponderadas as coisas, ante a impotência da antiga classe política para se auto-reformar e apesar dos perigos de instauração de, uma ditadura militar “de esquerda” (ou de direita), mais valia que fosse a tropa a limpar o universo da acumulação do capital das escórias do atraso e do subdesen­volvimento, através de um golpe de Estado palaciano, do que deixar os próprios espoliados, sem qual­quer espécie de mediadores, tentarem a sua sorte… Nestas coisas, aliás, sempre foi assim: hoje, como há trinta e tal anos, os elegantes e os despreocupados acham – cheios de “bom senso”, de “realismo” e, se necessário, apoiados em argumentos de grande rigor “científico” – que qualquer solução autoritária é preferível à eclosão de uma genuína revolução libertária e a que os oprimidos e explorados tomem a condução dos seus destinos nas suas próprias mãos. Se assim não for, que o primeiro ilustre democrata que assim não pensa nos lance a primeira pedra!

 

Nestes processos um pouco mais abruptos de simples passagem teleguiada de um regime de tipo fascista para um regime democrático – com total manutenção do sistema dominado pelas classes de expropriadores e seus testas de ferro – há, porém, sempre um perigo a exorcizar: o do chamado período de transição para a democracia dita plena, quando por definição se sabe que a democracia só pode ser formal ou meramente nominal. Querer mais do que isto, já não é querer a democracia, mas a acracia e que o “poder caia na rua”, ou no cano de esgoto, sucedendo-lhe a descarga do autoclismo. E aí é que está o grande perigo: a tramóia da democratização não pode ser desvendada e os prestidigita­dores de serviço – como o Movimento das Forças Armadas, a Junta da Salvação Nacional, o Conselho da Revolução, o “companheiro” Vasco Gonçalves, o grupo dos nove, o major Otelo, o major Melo Antunes, os almirantes Pinheiro de Azevedo e Rosa Coutinho, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Álvaro Cunhal, os três mosqueteiros e o capuchinho vermelho – não podem revelar que cami­nham para o populacho com “uma mão cheia de nada e a outra de coisa nenhuma”. Caliban ou Prometeu agrilhoado é como um leão adormecido e o seu despertar pode ser terrível. Pode querer a liberdade plena, como os anarquistas a entendem e não a democracia; pode querer a igualdade efectiva e não a socialização da miséria nem a ditadura dita do proletariado.

Para evitarem contrariedades e dissabores, a burguesia e a sua tropa (de choque) tinham, não obstante, os seus planos. Seguindo fielmente o exemplo do general De Gaulle e da burguesia francesa, a seguir à 2ª Guerra Mundial e à chamada “libertação”, foram buscar o PCP ao armário dos acessórios e deram. logo um ministério (sem pasta) ao velho estalinista Álvaro Cunhal. Para Avelino Gonçalves, outro pêcê menos ilustre, ficaria reservado o Ministério do Trabalho (assalariado), onde desempenharia as funções pouco lustrosas de bombeiro da Revolução Social e de jardineiro do golpe dos cravos. A escolha até parecia acertada. Mais preocupado em entregar – com a ajuda dos oficiais “progressistas” e de toda a rapaziada que se queria desenvencilhar a qualquer preço das colónias – a Guiné, Angola e Moçambique ao PAIGC, ao MPLA e à FRELIMO, isto é, à esfera de influência soviética, do que em picar a mula para a frente em Portugal, o PCP parecia constituir um excelente travão ao que quer que fosse que tivesse pernas para andar. Ainda por cima, sem recorrer a nenhuma agência publicitária que cuidasse da sua imagem de marca, saía da “longa noite do fascismo” – que tantas e tão injustificadas reputações criou  – com a aura e a auréola da “resistência” e do “antifascismo”; apesar de sempre se ter abstido de falar de "socialismo" e ainda menos de “comunismo”; já que, ao longo dos anos e durante a aspérrima clandestinidade, apenas alanzoara minimalista e inconsequentemente sobre a revolução democrática e nacional, quer dizer, sobre algo que se assemelhava a um "nacional-democratismo” qualquer. E a conquista das cúpulas do velho “nacional-sindicalismo” perpetrada pelos estalinistas durante a “primavera marcelista”, propiciadora ao ponto de depois falarem de “sindicalismo vertical” e de tentarem obter por via legislativa a “unicidade sindical”, também ajudava à festa e consolidava a sólida reputação dos impostores. Tinha, pois, o PCP, pelo menos aparentemente, a “autoridade moral” e a implantação necessárias para promover manifestações contra as greves e, também logo de início, con­tra as ocupaç6es de terras e de fábricas; até porque, nos países onde os “partidos irmãos” mandavam, greves e ocupaç6es nunca estavam na ordem do dia e eram selvaticamente reprimidas, havendo apenas espaço e tempo para as “batalhas de produção” à borla e outras formas de entretenimento popular. Falando com os seus botões,. devia pensar o Secretariado ou o Comité Central: “Que horror, camaradas! Greves não teleguiadas e ocupações não consentidas, isso leva-nos aos tempos horrrrorrosos, irrrresponsáveis da acção directa e do anarco-sindicalismo…”

O pior é que a ilusória implantação de PCP no seio do populacho, se bem que necessária para a boa prossecução dos negócios, não era suficiente. Foi quando a castanha estalou na boca dos respon­sáveis institucionais. Sem pedirem licença a ninguém – nem aos estalinistas nem à 5ª Divisão que, a pre­texto de “dinamização cultural”, andava a militarizar a esmo e a mostrar aos provincianos quem eram os novos donos do país -, assalariados agrícolas e desempregados sazonais do Alentejo e do Ribatejo ocuparam alguns latifúndios, enquanto operários ameaçados pelo espectro do desemprego e dos salários em atraso ocuparam algumas fábricas descapitalizadas e estranguladas pela falta de créditos e de encomendas. Mais ou menos por essa altura, generalizou-se o fenómeno das comissões de traba­lhadores e de moradores. A tudo isso como que “presidia” um espírito libertário algo confuso e difuso, de matriz espontânea, quando não conscientemente “espontaneista”, infelizmente insuficiente para garantir a boa coordenação dos vários aspectos, o desenvolvimento do movimento e o seu não confisco em proveito próprio pelos "vanguardistas” habituais. Por isso mesmo, na ausência de um movimento anarquista e anarco-sindicalista forte e organizado à nossa maneira responsável e afinitária, só podia acontecer o pior: a esquerda e a extrema-esquerda autoritárias, com o PCP à cabeça, burocratizaram, recuperaram, desacreditaram e desfiguraram tudo, ou não pensassem elas lá bem no fundo – ao fim e ao cabo como a direita mais tradicionalista e paternalista – que os trabalhadores entregues a si próprios só fazem asneira, além de, como o camarão, só terem merda na cabeça…

Resumindo e concatenando: demasiado ocupadas com o flirt com os oficiais “progressistas” ­quais boas meretrizes da vida política – e repetindo de cor e salteado, de maneira acéfala e demagógica, as fórmulas rituais da sua subserviência em relação à bota militar (O povo está com o MFA” ,”soldados sempre, sempre ao lado do povo”, etc.), a esquerda e a extrema-esquerda autoritárias nem viram despontar o movimento das ocupações. Depois, como não podiam mais parar o comboio em andamen­to, apanharam-no precipitada e oportunisticamente, e desviaram-no, já que sempre preferiram a buro­cratização e a estatização da propriedade a qualquer forma de gestão directa da riqueza social pelos próprios produtores. Para elas, o lema da Associação Internacional de Trabalhadores (também conheci­da por 1ª Internacional), segundo o qual a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios tra­balhadores”, sempre foi letra morta. Com tal proceder e tal mentalidade, forneceram grandes “argu­mentos” à burguesia mais retrógrada sobre a “utopia” operária e camponesa, e desbravaram o terreno à chamada lei Barreto sobre as “reservas” e aquilo a que podemos chamar ironicamente as “quotas disponíveis”. A seguir e a seu tempo, obedecendo a um doseamento, “sádico”, viriam a restante e acabrunhadora legislação avulsa e as sucessivas revisões constitucionais. Estavam salvos a Pátria e o Estado de Direito!

 

Uma palavra ainda sobre essa extrema-esquerda autoritária: quer ela fosse maoista ou trots­kista, castro-guevarista ou mais genericamente marxista-leninista, guerrilheirista ou simplesmente ter­ceiro-mundista, ideologicamente sempre esteve muito próxima do PCP. Passava a vida a definir-se em relação a ele, a criticá-lo com paixão e veemência, a plagiá-lo o mais subtilmente possível, a fazer-lhe o frete e a “radicalizar-lhe” os programas. É o que se pode chamar o “radicalismo no disparate”. Bastava o Comité Central dos estalecas profissionais dizer: “nós queremos A”; para logo os estalecas amadores da UDP ou do MRPP também ganirem esganiçada e infantilmente: e nós queremos A+B, arra-luça, somos mais radicais!”. Depois, seguiam-se as bizantinas, teológicas e intermináveis discussões sobre ortodoxia e revisionismo. No fundo, uma ambivalente e freudiana relação de amor-ódio unia e une toda essa gente. Quando a China e Cuba caírem como caíram a União Soviética e os seus satélites, as semelhanças entre todos ainda virão mais à tona e poderemos então gritar: “bloco afinal só havia um, o do Estado e do Capital e mais nenhum!”

 

Mas não é tudo. Tal como o PCP, a extrema-esquerda autoritária teve sempre e tem aquilo que podemos apodar de concepção golpista da revolução, não pretendendo mais do que fazê-la por cima, isto é, através das maquinações e manipulação das cúpulas civis ou militares. Na conformidade, como a sua coragem física sempre foi escassa e o seu projecto revolucionário nulo, pensava e queria fazer a economia da Revolução SociaI, pondo a tropa a trabalhar por conta e crendo que ela faria pela extrema­-esquerda aquilo que ela própria por si não fazia. A ironia involuntária atingiu as raias e os cumes do ridículo, quando, manejando a escova e a graxa, qualquer partidelho ou grupóide se punha a contar espingardas. Uns pensavam dominar a Marinha e os fuzileiros, outros namoravam descaradamente com o major Saraiva de Carvalho e com o COPCON, outros apalpavam os bicípites dos pára-quedistas, outros ainda, sem pudor nenhum, achavam que os comandos eram os mais viris…

 

Foi neste ambiente psicologicamente enfermiço que despontaram meigos tropismos como os SUV (Soldados Unidos Vencerão) e juramentos de bandeira “subversivos” como o do RALIS. Na práti­ca, em vez de apressarem a desagregação das Forças Armadas, vieram aumentar-lhes a coesão e conso­lidar-lhes o espírito de corpo, quando a terapia tradicional fraquejava. Nem outra coisa seria de esperar de uma extrema-esquerda autoritária que nunca compreendeu que todos os exércitos (vermelhos, azuis, amarelos ou pardos) se equivalem e que os militares “de esquerda”, como os padres liberais, se contam. entre os piores inimigos da humanidade. Tanto uns como os outros tentam fazer-nos esquecer que o melhor exército é aquele que não existe, do mesmo modo que a “teologia da libertação” – de D. Hélder Câmara ou do padre Boff – não nos deve fazer perder de vista a libertação da teologia. Mas, repetimo­-lo, isso é coisa que não entra sequer na cabecinha obtusa de partidos políticos que, como a Mocidade Portuguesa, têm os seus lusitos, infantes, vanguardistas, chefes de quina, comandantes de castelo e comandantes de bandeira… Quando se unem, no meio de toda esta pessegada, em coligações politi­cantes de fachada e de estados-maiores como a FUR (Frente de Unidade Revolucionária) – que chegou a englobar o PSR, a UDP, o MES, o PRP e o inefável PCP, o qual logo a seguir “borregaria” e roeria a corda, para conseguir a plena legitimidade e a respeitabilidade burguesa -, fazem-no sempre para nos taparem a linha do horizonte e nunca para nos deixaram ver a saída do túnel. Estão todos a anos-luz de um Albert Libertad, especialmente quando este declarava; “O antimilitarismo é de origem essencial­mente anarquista. O antimilitarismo só pode ser anarquista. Só aqueles que lutam contra a organização social na sua totalidade, têm a dupla vontade de não defendê-la e de destruir aqueles que a sustentam”.

Quanto à burguesia lusitana – que foi fascista no “bom momento”, “de esquerda” logo a seguir ao 25 de Abril e hoje, com a descoberta do caminho marítimo para a CEE e para a União Europeia, é modernaça, europeia, social-democrata ou neo e ultraliberal -, evidenciou logo a sua falta de classe, mal a chamada “roda da História” acelerou um tiquinho. Quando a caliça do edifício social começou a cair, pensou logo que vinha aí um abalo sísmico e entrou em pânico. Parte dos seus efectivos converteu-se ao “socialismo” e até ao marxismo-leninismo, participando activamente com o furor e o fervor dos neó­fitos nos “saneamentos selvagens”, quer dizer, na patética corrida aos tachos: enquanto outra parte, possessa ou simplesmente sucumbindo a uma crise de histeria, vendia residências magníficas por uma pechincha, evadia capitais e cavava com todo o garbo e galhardia para a Espanha ou para o Brasil, por essas paragens vizinhas ou remotas criando o ELP, o MDLP e outros grupos de rufiões e caceteiros, membros de qualquer partido nacional-porreirista…

 

Mantendo uma prudente equidistância entre as duas. alas da burguesia desavinda e interpre­tando correctamente, durante um lapso de tempo mais ou menos longo, os interesses pluralistas da classe considerada de lés a lés, surgiu então o PS envolto em esplendor democrático. O seu papel não foi nada despiciendo, embora muito menos audaz do que aquilo que se pensa, se nos lembrarmos, por exemplo, da maneira como desconvocou a contra-manifestação de Janeiro de 1975 contra a já referida “unicidade sindical” de recorte estalino-fascista. Não obstante, à volta de Mário Soares, Salgado lenha ou Almeida Santos – ilustres advogados de uma causa não perdida -, os quais eram acolitados por toda uma corte de ex-pêcês, ex-esquerdistas, “católicos progressistas” e membros da Maçonaria, ainda teve o ensejo de fazer das suas e de contribuir poderosamente para que tudo caísse nas águas de bacalhau da democracia representativa e no marasmo pós-eleitoral; sobretudo quando nem o pequeno e aguerrido Sá Carneiro, nem o conspícuo administrativista Freitas do Amaral, assistente de Marcelo Caetano e douto animador da Câmara Corporativa, tinham a mais pequena “autoridade moral”, como soe dizer­-se, para mexer uma palha.

 

Claro que tanto mérito ecuménico e convivial foi recompensado, tendo o PS o ensejo de formar governos minoritários e, depois, de se coligar com o CDS, sem esquecermos a sua união com o PSD, para a formação do Bloco Central. Em todos esses governos “socialistas”, foram sempre tomadas medi­das das mais duras e impopulares, as quais vão dos pacotes laborais às contratações colectivas e con­tratos a prazo, passando pela contenção da “massa salarial”, pelos despedimentos e pelos sucessivos cerceamentos do “direito à greve”. Na prática, o PS não passou, pois, da “honesta gestão dos bens da burguesia”, como já Léon Blum dissera a propósito de 1936, ano da Frente Popular francesa. É o que todos os Partidos Socialistas, com os eurosocialistas à cabeça, fazem ou são capazes de fazer. Por tal razão, o “gado eleitoral”, cheio de ingratidão e de requintes de malvadez, castiga-os e entrega a con­dução dos negócios à AD (Aliança Democrática) e, depois, a um contabilista qualquer, como o severo e taciturno Cavaco Silva…

 

Digamos ainda, para concluir este quadro pouco dignificante, que se, num plano meramente político, os referidos partidos, embora com ópticas por vezes divergentes, deram o seu contributo para que o 25 de Abril não passasse de um golpe de Estado militar, seguido de uma derrapagem controlada, não se fosse para aí partir a caixa de velocidades; num plano militar, a aparente, mas ainda assim embrionária, indisciplina da tropa foi logo jugulada. Em primeiro lugar, por aqueles que lhe queriam impor uma “disciplina revolucionária” e transformá-la num sinistro e ascético “Exército popular”; em segundo lugar, pelos mandantes de Ramalho Eanes, obscuro general de Alcains, e do major Jaime Neves, rufia operacional dos comandos. A própria brevidade da escaramuça de 25 de Novembro de 1975, ante a passividade de toda a gente e muito em especial da dos potenciais interventores militares, é eloquente. Revela a que ponto toda a gente estava cansada, frustrada e desencantada e que, qualquer que fosse a ala do Estado e do Capital que ganhasse, quem perderia sempre seria a multidão dos explo­rados e oprimidos. Aos soldados rasos – que deviam ter despido os uniformes e, se necessário, virado as armas contra todos os seus superiores hierárquicos – só restava o regresso cabisbaixo à caserna, o corte de cabelo regulamentar, a palmatoada nas unhas e apanharem pelas trombas com o RDM (Regulamento de Disciplina Militar)…

 

 

Trinta e tal anos depois, sempre o mesmo panorama desolador e a tendên­cia para o "fixismo das espécies"

 

No essencial, tudo se passou de tal maneira como atrás dissemos e todo o quadro que pintámos à broxa larga se projecta tão inexoravelmente no panorama hodierno, que podemos inquirir com todo o cabimento, justamente porque não temos nenhum interesse inconfessável a esconder: trinta e tal anos depois da demissão e debandada de tanta gente, que realidade é que temos diante dos olhos? Será “o país das maravilhas”, que deu a volta à caixa de pirolitos da Alice e nos foi facultado, como reza a campanha publicitária das comemorações, pela “democratização, descolonização e desenvolvimento”, o que tomaria perfeitamente prescindível a Revolução Social, tal como os anarquistas a entendem?

 

No nosso entender, processos históricos completamente distintos e até antagónicos nunca podem desembocar em resultados semelhantes; a menos que se determine, se não científica, pelo menos democraticamente, por lei ou por decreto, que não há qualquer nexo entre determinado aconte­cimento e as suas causas, ou entre esse evento e as suas consequências, ou ainda entre os fins a atingir e os meios a utilizar – o que nos parece uma incongruência lógica e ética de todo o tamanho.

 

Seguindo o itinerário que nos é sugerido – e qualquer outro seria possível, mas não forçosa­mente pela ordem que nos é proposta, comecemos pela descolonização a que alguns chamaram “exem­plar”. Foi o produto de uma colonização não menos “exemplar”. Como Portugal fora o primeiro pais europeu a estender a garra adunca para África (logo no tempo do Infante D, Henrique) e o último de lá a arredar pé, as consequências de uma rapina multissecular só podiam ser terríveis. Ao tráfico de escravos para Portugal, Brasil, Estados-Unidos e ainda outros destinos, em que a marinha mercante lusitana foi exímia; às campanhas de “pacificação” e “limpeza”, começadas com sanha na Monarquia, e continuadas com furor durante a 1ª República e aceleradas sem vergonha nenhuma durante o fascismo pelo “intrépido” Exército português – só podia suceder uma descolonização canhestra, atabalhoada, cabisbaixa e envergonhada. As suas consequências – e nisso não há qualquer paradoxo – foram, ao fim e ao cabo, as da colonização: êxodo de centenas de milhar de brancos, mestiços e negros (o que para a esquerda autoritária era irrelevante); substituição, nas ex-colónias, do velho racismo branco por um igualmente abominável racismo negro;  eclosão de carnificinas e de guerras civis do género tribal, como resposta à imposição do Estado-nação de tipo europeu, dentro de fronteiras completamente artificiais traçadas à régua e esquadro nas mesas dos tratados de pilhagem internacional. E não é tudo. Enquanto as guerras civis em Angola e Moçambique, sem esquecermos a ditadura guineense e os massacres do feroz Exército indonésio em Timor-Leste, fizeram no cômputo geral muito possivelmente mais de um milhão de mortos, além dos inúmeros estropiados e das crianças, velhos e mulheres que à fome se vão extinguindo; os negócios dos Estados mercadores de canhões, das companhias petrolíferas e diaman­tíferas e dos países importadores de produtos agrícolas a baixíssimo preço vão prosperando, muito obrigado. Pois se consta que o próprio Estado português, democrático e de Direito, e alguns dos “heróis de Abril” , apesar da sua aparente inépcia comercial, amealham os seus cobrezinhos nas transacções que efectuam com quem actualmente manda nas ex-colónias! Tudo, é claro, a pretexto de “cooperação” e de “humanitarismo” …

 

Outro dos grandes sucessos do pós-vinte e cinco de Abril, ao que parece, é a democratização imparável em que vivemos. O próprio termo democratização dá logo a entender, a vinte anos de dis­tância, que o processo é longo e provavelmente interminável, nunca se chegando a atingir a “democra­cia plena”, Corroborando a nossa asserção, alguns políticos desiludidos que nunca conseguem atingir os cargos cimeiros, falam desanimadamente de “degradação da vida democrática” ou de “governamentalização da vida política”, tentando condoer-nos; enquanto Mário Soares e outros profes­sores impenitentes, contentes consigo próprios e com a “vida” que levam, peroram interminavelmente sobre o “espírito cívico”, a “cidadania” e a sobrevivência “em democracia”. Coisas que pouco custam ao erário público!

 

O Zé-povinho, porém, parece cada vez mais alheio ao discurso, mais cábula e mais cínico. Compreendendo que a democracia representativa não passa de aritmética eleitoral (“Oh meu amigo, eu tenho trinta e tal por cento de votos correctamente expressos, enquanto você não passa de uma gor­jeta de doze por cento!”) e que toda a gente fica deprimida logo a seguir à queda na uma do último boletim de voto – incluindo os ecologistas que votam em papel reciclado -, sente também que ela não o põe ao abrigo de nada: nem da exploração e opressão quotidianas, nem sequer do regresso do fascismo e do nazismo. Não chegou Hitler ao poder, através de um processo eleitoral mais ou menos limpo, mais ou menos sórdido, como sempre acontece? E muito mais recentemente não ganharam as eleições legis­lativas russas a extrema-direita de Jirinovsky e os “comunistas”, constituindo uma frente unida que lembra os velhos tempos do “nacional-bolchevismo”? E mais recentemente ainda não foi o capitalista mafioso Berlusconi que ganhou as eleições legislativas na Itália, aliado aos arrogantes racistas da Liga Lombarda e aos ditos neofascistas de Fini (e que tanto lhe custou admitir a derrota mais recentemente), como se o fascismo fosse uma velharia susceptível de “mo­dernização”? E que pensar do revivalismo nazi, já considerado parte integrante da vida democrática, em países como a França e sobretudo a Alemanha? Ou do marginal caso português, em que, pela primeira vez, os “Nazi-skins” do Benfica, do Porto ou do Sporting dão a entender, com perfeita impunidade e até a colaboração mais ou menos discreta da polícia, que o fenómeno da extrema-direita começa a ter uma base social de apoio, muitas vezes oriunda das classes mais desfavorecidas e desesperadas?

 

Passando finalmente à última das vacas sagradas, a do desenvolvimento – já que ninguém tem mais coragem para falar de "socialismo" ou de "comunismo", os quais só têm sentido se forem liber­tários ou anarquistas -, digamos sem rebuço que o desenvolvimento pelo desenvolvimento faz parte do discurso meramente economicista, ou da verborreia contabilística do “cavaquismo”. Não nos elucida sobre o tipo de desenvolvimento – uma vez que nada nos diz sobre o fim da separação entre trabalho dito manual e trabalho dito intelectual, sobre o fim da separação entre o campo e a cidade, o centro e a periferia, e o fim da maldição do trabalho assalariado -, além de nada nos dizer sobre a incapacidade do capitalismo fazer algo que não seja destruir para reconstruir, ou vice-versa. A chamada "destruição criadora", de que falava Schumpeter!

 

No caso português, desenvolvimento quis apenas dizer entrada de dois milhões de contos por dia (oriundos dos fundos europeus) até ao ano 2000, acesso às alamedas do grande capital aos mais “afoitos”, auto-financiamento do Estado e da burocracia parasitária e liquidação dos sectores retar­datários; assim como exclusão, marginalização e desemprego para a grande massa dos “atrasados”, Dos que, ainda segundo Schumpeter, não passam do “circuito económico” para a “evolução”. Por algu­ma razão, as cadeias portuguesas estão cheias como nunca e vastos sectores da juventude são empurra­dos para a “economia da droga” – que nos pretende fazer esquecer a droga da economia – e outras for­mas de alienação por vezes irreversível.

 

Quanto às posições do CDS e do PCP sobre “soberania nacional” e “nacional-capitalismo”, opostas às posições mais eurocráticas e supranacionais do PSD e do PS, nunca nos entusiasmaram e, aliás, não passam de querelas entre’ as partes que constituem a estrutura tecno-burocrática da sociedade autoritária e capitalista.

 

Posto isso e como, ganhe quem ganhar, são em geral sempre os mesmos que estão na mó de cima, só podemos provisoriamente concluir que o velho “fixismo” de Cuvier e dos outros naturalistas anteriores a Darwin – que determinava peremptoriamente que as espécies são sempre as mesmas, desde a “Criação” até aos nossos dias – parece continuar ainda vigente, embora as designações moder­naças mudem. Teria a sua graça e seria uma formidável ironia da História, se uma autêntica revolução libertária e igualitária, individual e colectiva, feminina e masculina, justiceira e emancipadora, quotidia­na e sintonizada, atirasse com todos esses ídolos e animais empalhados pela borda fora…

 

O colectivo da revista “A Hidra”

 pela “Carbonária Anarquista”

 

 

 

Anarquia em Espanha

MAS DE LAS MATAS E A SUA COMARCA

 

Publicamos um excerto do livro "Colectividades Libertárias em Espanha", de Gastón LevaL Neste livro,  descreve-se como, em várias regiões de Espanha, durante a Revolução de 1936-39, foi posto em prática o comunismo anarquista, através dum vasto movimento social organizado que pôs verdadeiramente em causa os alicerces do capitalismo e do Estado e que demonstrou que, ao contrário do que afirmam os vários defensores desta sociedade autoritária e exploradora, o comunismo libertário, ou anarquista, é perfeitamente viável.

 

 

Ao norte da província de Teruel, Mas de las Matas, com 2.300 habitantes, é o centro de uma comarca composta de 19 povoações. As mais importantes são Agua Viva, Mirambel (com 1.400 habitantes), La Ginebrosa (com 1.300). No princípio de Maio de 1937, apenas seis delas se encontravam integralmente socializadas; quatro estavam-no quase por completo; cinco, meio socializadas. Três estavam a organizar-se e uma última ainda hesitava.

 

Nesta comarca, a pequena propriedade encontrava-se bastante difundida, o que não favorecia a formação de sindicatos operários e o que explica por que razão as ideias anarquistas aí se tenham estabelecido desde o início do século. Embora a zona agrícola fosse relativamente rica, graças ao regadio, nalgumas povoações, privadas de água, a vida era, em geral, miserável. Tendo os grupos libertários de Mas de las Matas actuado quase sem interrupção, é a última geração dos seus elementos que agora está à frente da organização colectiva da aldeia.

 

Pode dizer-se que, em relação ao conjunto das povoações, a situação económica dos nossos companheiros de Mas de las Matas era, sem dúvida, a de privilegiados. Mas a revolução que puseram em prática tinha, principalmente, um carácter moral, pois colocavam a justiça acima dos interesses pessoais. São anarquistas cultos, modestos e simples. A sua personalidade revela-se no decorrer de uma conversa, assim como na obra que, modesta como eles próprios e, no entanto, sólida, estão a realizar.

 

Durante a monarquia predominavam aqui as tendências liberais. A República originou algumas mudanças, mas desiludiu a maioria da população, a qual se virou para a esquerda revolucionária. Foi assim que, em 1932, se formou o primeiro sindicato de tendência libertária aderente à CNT, e que, no ano seguinte – numa intentona

malograda – foi proclamado o comunismo libertário. A Guarda Civil acabou com este primeiro ensaio em menos de dois dias e o sindicato foi encerrado até à véspera das eleições de 1936, que não impediram que o ataque franquista se produzisse no mês de Julho seguinte.

 

Não houve luta e, não se tendo instaurado nem o fascismo nem a república, os nossos companheiros propuseram que se criasse a Colectividade Agrária de Mas de las Matas. A iniciativa foi aceite por unanimidade numa assembleia de carácter sindical. No entanto, nem todos os proprietários estavam filiados no sindicato. Tinha de se proceder com eles de forma especial. Assim se fez, estabelecendo-se uma lista de adesões voluntárias que, em quinze dias, reuniu 200 famílias. Durante a nossa visita, este número aumentou para 550, das 600 que compunham a totalidade. As que ficaram de fora pertenciam à UGT e praticavam a exploração individual.

 

A mesma norma é observada em toda a comarca. Tanto se pode aderir à colectividade como continuar a trabalhar individualmente a terra que se possui. Os vários graus de socialização realizados nas diferentes povoações provam que esta liberdade é efectiva.

 

Em nenhuma das povoações da comarca há regulamentos ou estatutos de colectividades. Politicamente, aplica-se um conceito anarquista integral. Todos os meses, a assembleia geral dos colectivistas indica à Comissão as normas a seguir. Nada da rigidez dos códigos, apenas a flexibilidade da vida e os acordos concretos sobre problemas também concretos.

 

Não se pode dizer que, por se verificar esta característica, tudo seja caótico. As nossas recordações de Mas de las Matas imediatamente nos fazem evocar a feliz Arcádia de que falaram os poetas. Era evidente a tranquilidade e a felicidade, no andar das pessoas, no aspecto das mulheres sentadas no passeio, tecendo e conversando placidamente diante das casas. É lógico supor que subjacente a esta tranquilidade existia uma boa organização da vida. Analisemo-la.

 

Foram constituídos 32 grupos de trabalho, de importância variada segundo as especializações agrícolas e as dimensões dos campos mais ou menos limitados pelo capricho do relevo. Cada grupo tem a seu cargo uma zona de regadio e outra de sequeiro. Reparte-se assim, equitativamente, o agradável e o menos agradável.

 

O regadio permite aos habitantes de Mas de las Matas obter hortaliças e frutas. Menos afortunados, os outros povoados apenas conseguem produzir cereais, sobretudo trigo, e azeitonas. Quanto ao trabalho, encontra-se distribuído por todas as colectividades, por grupos com os seus delegados; no cume – se se pode empregar esta palavra – está a comissão administrativa. E tal como os delegados de Mas de las Matas se reúnem semanalmente para decidirem quais os trabalhos a serem realizados, o mesmo fazem os delegados nas outras povoações.

 

Todas as colectividades da comarca coordenam, deste modo, os seus esforços.

 

Em Mas de las Matas não foi possível aumentar a superficie de terras cultivadas. As terras de regadio já eram utilizadas por completo. Mas parte dos terrenos de sequeiro, que até então tinham sido destinados para pastos, pode agora ser aproveitada para a produção de cereais, existindo nas montanhas pastos naturais suficientes para o gado se alimentar. Contudo, não se pode semear trigo, aveia ou milho depois de uma primeira lavragem da terra, apenas se pode prepará-la para o próximo ano. Trinta hectares já foram amanhados para esse fim.

 

Estes esforços intensificaram-se com o regresso dos milicianos da frente e é de temer, dizem os meus companheiros, que dentro de dois anos surja uma grave dificuldade: a de dar vazão ao excedente de trigo. No entanto… é difícil contrariar o seu entusiasmo, igual ao que encontro em toda a parte.

 

Mais fácil foi intensificar a criação de gado. O número de cabeças de carneiros e ovelhas aumentou 25%. O número de porcas para reprodução passou de 30 para 61; as vacas leiteiras que eram 18, são actualmente 24, e são albergadas num grande estábulo construído pela colectividade. O número de porcos é também muito superior ao anterior, mas, tendo faltado tempo para construir uma pocilga de grandes dimensões, compraram­-se animais jovens em grande quantidade, tendo sido distribuídos à razão de um ou dois por família. Quando se fizer a matança, a carne será repartida e salgada segundo as necessidades de cada lar.

 

Porém, a produção não se encontra limitada à agricultura e à criação de gado. Neste centro comarcal, da mesma maneira que em todos os centros mais ou menos importantes, desenvolveram-se actividades diversas: construção civil, fabrico de alpergatas, matadouro, alfaiataria, barbearia, padaria, etc. Cada uma delas constitui uma secção da colectividade geral e trabalha para todos.

 

Se uma secção necessita de comprar ou de consertar determinadas ferramentas, dirige-se, por intermédio do seu delegado, à comissão administrativa, a qual lhe entrega um vale para o delegado dos ferreiros que efectuam o trabalho requerido. O pedido é, ao mesmo tempo, registado no livro da secção da metalurgia. Se uma família necessita de móveis, dirige-se também à secção administrativa, que lhe entrega um vale para o delegado dos marceneiros. Sem este vale, que simultaneamente constitui uma autorização e um controlo do trabalho, este não seria efectuado. É deste modo que as actividades de cada grupo de trabalho e os gastos de cada família são registados.

 

Não se usa o dinheiro nem qualquer moeda local nas povoações da comarca. Assim se explica, sem dúvida, que a socialização do comércio tenha sido um dos primeiros passos dados. No entanto, não foi absoluta. Encontrámos alguns comerciantes obstinados, como velas que se apagam, no seu isolamento. Os armazéns comunais substituem, no seu conjunto, o antigo processo de distribuição.

 

Vejamos mais detalhadamente a estrutura de uma povoação colectivi­zada. Toma-se difícil dar por escrito uma ideia suficientemente elucidativa deste amplo movimento que põe em prática a socialização agrária. Em Mas de las Matas, como em cada uma das centenas de povoações organizadas colectivamente, a nossa atenção fixa-se em letreiros onde, sobre as cores geralmente vermelha e negra, e marcadas com as iniciais CNT-FAI, se lêem inscrições como as que citamos ao acaso: Armazém Comunal, Matadouro Comunal, Correaria Colectiva, Carpin­taria Colectiva, Padaria Comunal, Alfaiataria Colectiva, Ferraria Comunal, Fábrica Colectiva de Bolachas, etc.

 

Aqui, deparamo-nos com o Armazém comunal de alimentação e ferragens, máquinas e outros objectos. Além, com o Depósito comarcal de adubos químicos e de cimento, e um Armazém de tecidos e vestuário, muito bem abastecido. Na loja de um antigo fascista desaparecido, cacique da povoação, distribuem-se roupas aos habitantes do lugar e às colectividades da comarca. E eis aqui a secção de abastecimento, na qual se entrega aos individualistas os vales por eles solicitados, e onde se regista num ficheiro o consumo de roupas feito por cada família.

 

Nesta destilaria extrai-se álcool e ácido tartárico do bagaço de uva forne­cido por várias povoações, que em conjunto constituem a Comissão Administrativa da fábrica. Esta comissão reúne-se periodicamente. Entramos nesta fábrica e mostram-nos as novas instalações, construídas para se aumentar a produção de álcool de 96°, necessário ao tratamento dos feridos, nas frentes de luta.

 

Na alfaiataria, operários e operárias cortam e cosem as roupas para os camaradas de todas as colectividades da comarca. Prontos para a confecção, os cortes estão classificados e distribuídos por várias estantes. Cada um tem uma etiqueta na qual está inscrito o número e as medidas correspondentes do indivíduo a que se destina.

 

As mulheres vão abastecer-se de carne num bonito estabelecimento revestido de mármore e de mosaico. O pão, que antes se fazia em casa, sem comodidade, duas vezes por semana, é agora amassado diariamente nas padarias colectivas.

 

No café, todos podem tomar dois copos de malte, dois refrescos ou duas gasosas por dia.

 

Visitemos os arredores do povoado. Vamos encontrar os viveiros onde dois milhões de plantas hortícolas são esmeradamente preparadas por uma família que,  anteriormen­te, ganhava muito dinheiro com a comercialização desta produção, e que aderiu à colectividade desde o seu início.          As        plantas serão transplantadas para a horta local ou de outras povoações.

 

Nesta oficina de costura, confecciona-se roupa de mulher. Além disso, há raparigas doutras povoações que aqui vêm aprender para, mais tarde, coserem a sua roupa e a dos seus filhos.

 

Um letreiro chama-nos a atenção: "Livraria Popular". Trata-se de uma biblioteca em cujas prateleiras se encontram seis, oito, dez exemplares de Fábricas colectivizadas de pão cada um dos livros de sociologia, de literatura, de divulgação científica que se pensa ser útil colocar ao alcance de todos, inclusive dos individualistas. Noutras estantes, mas em maior número, estão livros para crianças, obras de todos os tipos: história, geografia, geometria, aritmética, gramática, livros de contos e narrativas, novelas, cadernos e admiráveis colecções de desenhos, cujos modelos estão perfeitamente ordenados e organizados segundo as normas mais recentes.

 

Nesta colectividade geral, cada secção trabalha para as restantes; os esforços unem-se, o espirito de solidariedade preside a todos os empreendimentos. Contudo, tem-se a preocupação de não matar a iniciativa individual, a qual, de resto, pode existir desde que não se dedique à exploração de outrem. Isso iria contra o temperamento espanhol, no qual estão amalgamados a vontade pessoal e um profundo sentimento do dever. Assim, deixou-se que cada família tenha um pedaço de terra onde cultiva o que entender, o que permite o livre consumo de hortaliças. Os outros alimentos são distribuídos segundo as reservas disponíveis. Homens, mulheres e crianças recebem a mesma quantidade, estipulada pelas assembleias da colectividade, e podem, sempre na medida permitida pelas dificuldades económicas que a Espanha atravessa, trocar livremente um artigo por outro. O racionamento não constitui, portanto, uma regulamentação rígida, que obrigue a aceitar ou recusar uma coisa, sem compensação.

 

Nos primeiros anos, a proporção do consumo ­alimentação, vestuário, calçado, etc -estava assinalada num cartão por família, mas a seguir decidiu-se utilizar a caderneta standard adoptada no Congresso de Caspe e editada pela Federação Regional de Colectividades.

 

Foi também limitada a distribuição de roupa, máquinas e outros bens adquiridos na Catalunha, na medida em que, apesar de haver bens suficientes para trocar, é necessário um grande esforço para apoiar a frente de guerra. Isto não implica, porém, que se tenha suprimido completamente a distribuição de roupa. Para obter a roupa de que necessitam, os colectivistas têm agora à sua disposição recursos superiores, em regra, aos de que dispunham ante­riormente. Como exemplo, tomemos uma família composta por pai, mãe, um filho de idade compreendida entre seis e catorze anos, e um segundo filho com menos de seis anos de idade. A esta família é anualmente atri­buído um conjunto de bens equivalentes, em valor­-moeda, a 215 pesetas: 75 pesetas para cada um dos adultos, 40 para o filho mais velho e 25 para o mais novo. Quantas famílias camponesas de Espanha poderiam gastar, anteriormente, esta quantia anual em vestuário? E não nos esqueçamos que este cálculo por família não impedia que cada família escolhesse o seu equivalente em roupas de acordo com as preferências de cada lar.

 

O médico e o farmacêutico também fazem parte da colectividade, estando as suas actividades ao serviço de todos. Vivem em condições idênticas aos demais, embora disponham de recursos específicos para poderem continuar a estudar e adquirir publicações, revistas, livros e outros materiais necessários ao seu trabalho.

 

Além da Biblioteca Pública, que empresta livros ao domicílio, existem a biblioteca do Sindicato e a das Juventudes Libertárias. A escola é obrigatória até aos catorze anos. Uma escola para 40 crianças, que até então não tinham tido a possibilidade de estudar, foi instalada num conjunto de "casas agrícolas" [«masías» no original­ N. T.]. Em Mas de las Matas foram preparadas duas salas de aula para poderem receber, cada uma delas, 50 crianças com idade inferior a oito anos, cuja educação foi confiada a duas raparigas que tinham frequentado cursos superiores numa cidade cujo nome desconhecemos. Esta inovação teve também como objectivo a libertação mútua de mães e filhos durante várias horas por dia.

 

Os espectáculos públicos são gratuitos, tanto para os colectivistas como para os individualistas.

 

Inclusive quando, por ordem expressa do governo, o Conselho Municipal foi reconstituído, a alma da povoação continuou a ser a colectividade. O próprio sindicato tornou­-se um organismo quase inútil, foi quase totalmente esvaziado das suas antigas funções. O novo organismo tomou-se predominante na estrutura da comarca. Vejamos agora como funciona.

 

O Comité Comarcal, que reside em Mas de las Matas, foi nomeado por uma assembleia de delegados de todas as colectividades. Tem como missão coordenar os esforços na produção, organizar o trabalho à escala geral sempre que seja necessário, tratar das relações com as outras comarcas ou regiões e organizar as trocas.

 

Segundo as normas estabelecidas em toda a região de Aragão, nenhuma colectividade pode negociar por sua própria conta. Com esta norma, procura-se evitar a concorrência imoral e centralizar as aquisições de produtos, que poderão, assim, ser obtidos longe da colectividade, nas próprias fábricas, em melhores condições de qualidade e de preço. Ao mesmo tempo, isto permite intensificar as relações económicas com a Catalunha e o Levante.

 

Cada colectividade agrícola comunica ao Comité Comarcal a lista e quantidade de produtos excedentários de que dispõe, e pede, ao mesmo tempo, aquilo de que necessita, podendo consultar, em Mas de las Matas, o registo contabilístico onde fica anotado o duplo movimento de produtos e bens.

 

O Comité Comarcal sabe, com exactidão, quais são as reservas de cada povoação, em azeite, vinho, trigo e carne. Se uma delas não tem vinho em quantidade suficiente e o pede, o comité contacta a povoação que o pode disponibilizar. Se outra povoação necessita de azeite, o comité põe-na em contacto com a povoação que estiver em condições de satisfazer o seu pedido. As povoações que pediram determinados produtos darão outros em troca, cuja equivalência é calculada em pesetas, segundo os preços da altura. Por outro lado, se a povoação que forneceu o azeite não necessita do vinho dado em troca, pede ao comité outros artigos que este entrega, armaze­nando o vinho em Mas de Ias Matas, para ser trocado mais tarde, dentro da comarca ou fora dela. Em suma, o Comité Comarcal é o órgão regulador da distribuição entre povoações.

 

Não há qualquer dificuldade na aplicação deste sistema geral de compensação. O único inconveniente poderia residir em reminiscências do espírito capitalista e proprietário, segundo o qual uma povoação que enfrente grandes difi­culdades por razões estranhas à sua vontade deverá atravessar um período difícil mais ou menos longo. De maneira nenhuma. Acaba de acontecer algo que pôs o sistema à prova. As capacidades económicas de Seno e de La Ginebrosa foram, este ano, anuladas por uma tempestade de granizo. Ficou tudo, ou quase tudo, arrasado. Em regime capitalista, isto teria significado miséria e fome, com emigração dos homens para a cidade. Num regime no qual a economia estrita predomina sobre a solidariedade, as dívidas e os empréstimos contraídos para fazer frente à situação teriam condenado essas populações à miséria durante anos. No nosso regime de solidariedade libertária, a dificuldade ultrapassa-se com a ajuda-mútua, o contributo, o esforço fraterno de todos. Obteve-se tudo aquilo que era necessário para poderem voltar a semear, plantar e colher, e para viverem enquanto os frutos da terra não brotassem de novo, o que permitiu resolver o problema sem hipotecas ruinosas que teriam comprometido o futuro.

 

 

Esta revolução moral mereceria uma análise mais demorada, porque o mundo novo que se criou e se continua a criar fez nascer um espírito que exalta os sentimentos mais nobres que o coração do homem pode albergar. Isto traz-nos à memória algo singelo, mas significativo, que nos aconteceu precisamente em Mas de las Matas. Tínhamos ido ver, fora da povoação, uma piscina que os rapazes e raparigas estavam a construir num local profundo, ladeado, dum lado por uma casa particular e do outro por uma elevação pronunciada do terreno. Lá no fundo, os nossos construtores atarefavam-se alegremente, manejando pás e picaretas. Na nossa frente, na parte mais alta, havia um caminho que não podíamos ver mas cuja existência adivinhámos quando vimos surgir três homens, três agricultores de alpergatas e enxada ao ombro, caminhando com passo firme, sorridentes e confiantes. Viram-nos, como também viram os rapazes mais abaixo e, andando sempre, levantaram a mão amistosamente, saudando-nos com voz forte e vibrante, com a convicção que parecia sair dos seus peitos: «Saúde, companhei­ros!». Respondemos: «Saúde, companheiros!» e o mesmo fizeram os jovens que estavam mais abaixo. Essas duas palavras significavam que éramos todos irmãos, que a mais plena confiança existia entre nós, a confiança de cada um dos homens na sociedade, nos seus semelhantes; que tinha desaparecido aquilo que nos opunha uns aos outros; que já não existiam rivalidades, antagonismos, temores, hipocrisias, invejas, falsidades, ardis. Que éramos, todos, verdadeiramente irmãos… A caneta não consegue exprimir a sonoridade vibrante dessa meia dúzia de sílabas: «Sa-ú-de com-pa-nhei-ros!», tão cheias de um conteúdo novo, intenso, cálido, que continuam a ressoar-me nos ouvidos, com o fervor que guiava os construtores do mundo novo.

 

Gastón Leval

NO NUKES

 
Luta contra o Nuclear, consulta o site abaixo mensionado e podes assinar uma petição internacional contra o uso da energia nuclear.
Não te esqueças que foi o Estado dos E.U.A a lançar a primeira bomba atomica sobre civis.
Lembra-te do acidente de chernobyl na ex URSS.
O proveito da energia nuclear pode sair muito caro, e ainda só temos este planeta para viver!
Saúde e anarquia.
Libertália69