Cristo e as provas tiradas dos historiadores

CAPITULO II

 

As pretendidas provas históricas da existência de Cristo

 

Como já tivemos a ocasião de dizer, os únicos autores profanos que falaram de Cristo e que querem dar como testemunho da sua existência, foram Tácito, Suetonio, Plínio e o historiador hebreu Josefo.

Vamos examinar, pois, um por um, estes testemunhos para ver-mos que não só não constituem prova da existência de Cristo, mas até são novas demonstrações de todo o contrário.

De todos os historiadores apontados, o único que poderia ter valor de prova seria Josefo, pela sua qualidade de historiador hebreu, embora vivesse e escrevesse muitos anos depois do período que se assina à vida de Cristo.

Ora Josefo fala de Cristo só incidentemente nestas poucas linhas: «Naquele mesmo tempo nasceu Jesus, homem sábio, se é que pode chamar-se homem, pois realizou obras admiráveis, ensinando aos que queriam inspirar-se na verdade.

«Não só foi seguido por muitos hebreus, como também por alguns gregos. Era o Cristo. E tendo sido acusado pelos principais da nossa nação ante Pilatos, este o fez crucificar.

«Os seus partidários não o abandonaram, nem mesmo depois de morto. Vivo e ressuscitado, reaparece ao terceiro dia depois da sua morte, conforme as predições dos santos profetas, e realiza outras mil coisas milagrosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que usa»[1].

Salvador, Renan e Stefanoni, e em geral vários outros escritores nada dizem acerca da possibilidade de que tenham sido um tanto alteradas as palavras de Josefo, que acima deixámos transcritas, e isto compreende-se bem em autores que embora não acreditem na divindade de Jesus, obrigam à crença em um Cristo homem, mais ou menos extraordinário, no qual teve origem o cristianismo.

Contudo, se fizermos uma análise severa convenceremo-nos de que a passagem do livro de Josefo relativa a Jesus, foi completamente adulterada. Esta passagem, ou período, está como que a esmo, em meio de um capítulo, sem conexão alguma com quanto a precede ou se lhe segue, alinhavada, por assim dizer, na descrição de um castigo militar infligido à populaça de Jerusalém e a dos amores de uma dama romana e de um homem que obtém os seus favores, fazendo-se passar, graças aos sacerdotes de Isis, por uma personificação do Deus Anúbis. Estes dois acontecimentos estão ligados pelo mesmo historiador com um outro, porque ao relatar o segundo chama-o outro acidente deplorável, de onde se depreende que esse outro acidente só pode relacionar-se com o primeiro, isto é, com a sedição popular e a repressão que se lhe seguiu.

A passagem intercalada entre a descrição destes dois acontecimentos não pode de modo algum atribuir-se a Josefo, porque quebra bruscamente o fio da narração, quando o autor em toda a sua obra se revela mestre na arte de distribuir a cada assunto o seu lugar[2].

Mas ainda há mais. Josefo, em tão debatida passagem, fala de Cristo como poderia fazê-lo um bom Cristão, pois que o denomina ser sobrenatural e o relaciona com as predições dos profetas. Como é possível que Josefo, sem ser Cristão, antes continuando a ser Judeu, pudesse empregar semelhante linguagem, isto é, acreditar na divindade de Cristo? Isto é tão evidente, que o erudito padre Guillet se vê forçado a reconhecer que Josefo não poderia nunca falar daquela maneira como que se fosse um perfeito Cristão, e que, por conseguinte, deve ter-se por apócrifo e intercalado o personagem da referencia[3].

Além disso, vem dar-nos uma prova directa e definitiva desta intercalação, o facto de que S. Justino, Tertuliano, Origenes e S. Cipriano, nas suas numerosas e ardentes polémicas contra os Judeus e Pagãos, não citam nelas este personagem de Josefo. – Origenes declara que Josefo não reconhecia em Jesus a Cristo;[4] o que decerto não diria se o personagem citado por Josefo tivesse existido no seu tempo.

Finalmente por Juízo unanime de todos os críticos sensatos e competentes, este personagem de Josefo, deve crer-se como intercalado por uma fraude piedosa dos cristãos primitivos.

Outra passagem se cita ainda Josefo (Liv. XX – Cap. 9), na qual, falando da condenação de Jacob, acrescenta: irmão de Jesus chamado o Cristo.

 

Aqui a contradição de Josefo é flagrante porque fala de Cristo como de um homem qualquer, demonstrando que não crê na sua divindade, enquanto que no lugar citado, revela crer nela. Esta contradição explicou-se no sentido de que o personagem precedentemente analisado, foi intercalado ou desfigurado. Realmente, não há critério fixo que faça aceitar uma outra das suas passagens contraditórias, de forma que não só uma exclui a outra, senão que ambas se excluem ao mesmo tempo; havendo apenas a notar que esta ultima foi interpolada com mais habilidade que a precedente, pois nela fala Josefo, como hebreu que era, o que se xplica por ser anterior à já referida e que existia no tempo de Origenes. A primeira falsificação não podia então urdir-se como a seguinte, e dai o ter sido mais prudente.

 

Esta ultima passagem não é, não pode ser considerada como autentica, pela simples, obvia e indeclinável consideração de que, se Josefo tivesse tido efectivamente noticia de Jesus, chamado o Cristo, não teria deixado de dizer muito mais sobre a sua vida, tratando-se de homem que teria tomado parte tão grande, saliente, extraordinária, culminante e original na história do se país. – Enfim, se alguma duvida resta ainda da prova definitiva de que a passagem de Josefo sobre Jesus foi interpolada, bastar-nos-ia ler Focio, que formalmente declarava que não houve hebreu algum que falasse de Cristo.

 

Passemos agora a Tácito.

 

A passagem de Tácito que pode apresentar-se como testemunho em pró da existência de Jesus, é a seguinte:

 

«Nero, quase despercebidamente submeteu a processo e a penas extraordinárias aqueles a que o vulgo chamava cristãos, por causa do ódio que contra eles nutria pelas suas maldades. «O seu nome  provinha-lhes de Cristo que sob o reinado de Tibério, foi mandado supliciar por Poncio Pilatos. Apenas reprimida esta perniciosa superstição, fez novamente das suas, já não na Judeia, de onde provinha todo o mal, mas até em Roma para onde afluíam de todos os pontos sectários, praticando as obras mais audazes e vergonhosas. Por confissão dos que se corrigiam e pelo juízo universal do público, eram uns incendiários e professavam pelo género humano um ódio cerval». [5]

Nunca se cometeu falsificação tão manifesta, tão evidente em detrimento do grande historiador romano, falsificação que se estende a todo o fragmento. Enquanto Tácito diz que o vulgo chamava aos cristãos desta sorte, porque eram odiados pelas suas maldades, o falsificador faz com que ele se contradiga nas linhas a seguir, pretendendo manifestar que os cristãos procediam de Cristo. Ora tal contradição é impossível num historiador da estatura intelectual de Tácito e resulta da interpolação das palavras que se referem a Cristo, porque a etimologia dada por Tácito ao nome de cristãos, na linha que prende imediatamente a segunda etimologia, é apenas a que corresponde à opinião, em tudo favorável, que Tácito formava dos cristãos, manifestada e mantida em todo o fragmento em Tácito fala deles.

 

Outra circunstância que prova a interpolação encontra-se na passagem do mesmo Tácito, oportunamente revelada por Gavenal[6] em que o eminente historiador romano (Liv. II § 85) diz que foram expulsos de Roma os hebreus e os egípcios que formavam uma só superstição. Neste ponto, é evidente que Tácito não faz vir da Judeia os cristãos, mas sim do Egipto, destruindo a pretendida origem etimológica dos cristão de Cristo, que lhe fazem depender na passagem que apontámos. De forma que os que falsificaram uma, esqueceram-se de falsificar a outra, aquela em que Tácito demonstra desconhecer absolutamente Cristo, e afirma aquilo que em devido tempo demonstraremos: que o cristianismo não procede de Cristo mas da fusão dos hebraismo, do orientalismo e do helenismo realizada no Egipto.

 

Ainda que não quiséssemos admitir esta força, o testemunho de Tácito não provaria de nenhuma forma a existência de Cristo, já que apenas o cita para dar a etimologia do nome de Cristãos.

 

Não pode admitir-se que tácito escrevesse sobre Cristo pela forma ilusória que se pretende ter escrito; porque se Cristo tivesse realmente existido, sabendo-o ou conhecendo-o o historiador, teria, por certo, escrito e dito muito mais dele, sem limitar-se a falar de um homem extraordinário em tão poucas palavras, ditos de passagem e em citações incidentais[7].

 

A passagem de Suetonio é ainda mais breve e contraditória:

 

« – Roma – diz Suetonio falando do reinado de Claudio – Expulsou os Judeus que instigados por Cresto, promoviam contínuos tumultos»[8]. Deixamos de parte a diferença entre Cresto e Cristo para nos determos na dificuldade a que dá origem o personagem aludido por Suetonio. Se era Jesus Cristo, como se compreende que fosse expulso de Roma, onde nunca foi? E se foi ou esteve em Roma, como é que ainda era vivo no tempo de Cláudio, se Tácito nos diz que foi crucificado no reinado de Tibério, predecessor de Caligula e este, por sua vez, de Cláudio?

 

É forçoso que reconheçamos à vista de tal contradição, que os testemunhos de Tácito e de Suetonio, a respeito de Cristo se excluem e eliminam mutuamente.

O testemunho de Plínio, o moço, é pouco menos que estranho à questão. Numa carta a Trajano fala de Cristo[9] não como pessoa da qual queria demonstrar a existência  histórica, mas como da divindade simbólica da adoração dos cristãos. Assim como falou do Cristo, falaria de Brama referindo-se aos brâmanes, para indicar o objecto do seu culto, sem que, por esse facto, se propusesse a demonstrar a existência de Brama. Resumindo Plínio falou de Cristo apenas etimológicamente sem dar opinião alguma sobre a sua existência. Á parte, pois, os testemunhos de Suetonio e de Plínio, fica demostrada a falsificação dos que se atribuem a Josefo e a Tácito. Que resta neste caso das pretendidas provas históricas da existência de Jesus?

 

Nada, absolutamente nada, senão a prova, exactamente do contrário. Seriam acaso necessárias falsificações se a existência de Jesus tivesse sido um facto? As falsificações só se cometem para ocultar a verdade, e como as falsificações referidas se cometeram para fazer acreditar na existência de Jesus Cristo, temos de deduzir logicamente que ele nunca existiu. De outra forma não se teria falsificado a história para o provar.


[1] Josefo – Antiguidades Judaicas – Liv. XVIII, cap. III

[2] ª Peyrat – Histoire élementaire et critique de Jesus – Conclusion.

 

[3] Le des doctrines de la religion Christiene (Prim. Part. Cap. IV.)

[4] Contra Celso – Liv. I pag. 74

[5] Tacito-Annaes-Liv. XV pag.44

[6] Gavenal, Luiz – Jésus, devant l’histoire, n’a jamais vécu – Cap. IV – Genébre – 1874

[7] Alfredo Tagliatella – Rinnovamento de Rosa – 23 de Julho, 1904.

[8] Suetonio – Vida de Cláudio – Cap. XXV.

[9] Eis o que diz Plínio (Epistola 97 – Liv.X) Dirigindo-se a Trajano: «Todos invocaram comigo os Deuses e ofereceram incenso e vinho à tua imagem, maldizendo o Cristo.»

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