O Natal segundo Edgar Rodrigues

Estamos diante de mais um dia de grandes contrastes, uma data que teve a sua origem na imperfeição do velho calendário, saído, como se sabe, dos solstícios, ou seja, das duas épocas do ano em que se registram alternadamente a mais longa noite e o maior dia.

A época da noite mais comprida é solstício de inverno. E como, nos dois hemisférios, as estações são inversas, o que é o solstício de Inverno para o hemisfério norte é o solstício de verão para o hemisfério sul, e vice-versa.

Os antigos ignoravam que existisse uma parte da Terra onde houvesse o verão enquanto os europeus e asiáticos viviam o inverno. Julgavam que o solstício de inverno marcava a época da mais longa noite para a Terra inteira.

Nos seus mitos solares, faziam nascer o deus Sol no solstício de inverno, no momento em que os dias começavam a crescer. A sua juventude era no equinócio da primavera. No solstício de verão raiava em todo o esplendor da sua força, e depois do equinócio de outono, na regressão da sua idade, envolvia-se num escuro invasor.

Entre os povos do Oriente, o sol nascente era representado por um menino no colo de uma Virgem celeste, a sua mãe. Os egípcios, em especial, celebravam todos os anos, no solstício de inverno, o nascimento do pequeno Horus, filho da virgem Isis, e a sua imagem era exposta, num presépio à adoração do povo.

A grande imperfeição do velho calendário romano, chamado de Numa, apesar das intercalações periódicas, feitas pelos padres, de um mês completo de tamanho variável, no tempo de Júlio César o ano estava atrasado mais de 60 dias da época em que devia ter início. O ditador chamou o astrónomo alexandrino Sosígenes para desfazer e corrigir a diferença.

Para este a duração do giro da Terra em volta do Sol era de 365 dias e 6 horas, dando então origem ao ano de 365 dias com a reserva de 6 horas excedentes para formar um tricentésimo sexagésimo sexto dia a juntar a cada 4 anos. Propunha ainda o começo do ano no solstício de inverno. Mas César, para não chocar os demais habitantes romanos, preferiu que o 1º de janeiro do ano da reforma Juliana fosse colocado não no solstício mesmo mas no dia da Lua nova imediata. Ora, nesse ano, a Lua recaía 8 dias depois do solstício de inverno. Isso deu resultado a que, no calendário Juliano, o solstício correspondesse não ao 1º de janeiro, mas a 25 de dezembro.

O dia 25 de dezembro tornou-se, então, no novo calendário imposto ao império romano, como data oficial da festa que celebrava um por toda a parte o nascimento do Sol, de Horus egípcio, do Mirtha persa, do Phebo grego e romano, etc.

A Igreja ao sentar-se no trono imperial com Constantino, cerca de um século após a época de Júlio César, aproveitou a festa do solstício de inverno, do menino Horus nos braços da Virgem Isis para transformá-lo em festa do Natal, que se comemora até aos nossos dias das formas mais extravagantes, possíveis e imagináveis.

Mas não é disso que vou falar neste Natal.

Imaginei um Natal humanitário, sui-generis: sem poluição, sem violência, sem racismo, nem guerras, sem exploradores, sem explorados! Um Natal em que os homens e mulheres independentemente do sexo, da cor, do país de nascimento, da religião que professam, do tamanho, da força física, da inteligência, de credos políticos e ideológicos se dêem a mão como amigos, como irmãos, como iguais.

Um Natal em que os homens resolvam eliminar as armas químicas, bacteriológicas, atómicas, de hidrogénio; abandonar as pesquisas bélicas, desmilitarizar generais e soldados, derreter os tanques, as espingardas, as pistolas e metralhadoras, enfim, todas as armas e com essa matéria-prima fabricar ferramentas, máquinas agrícolas e industriais.

Um Natal com mágicos poderes para apagar todas as leis dos alfarrábios e dos cérebros, transformar os quartéis, seminários, igrejas e prisões em museus e escolas novas destinadas a educar, instruir e despertar a Humanidade só para praticar o bem. Abolir as cercas convencionais, conhecidas por fronteiras, acabar com as nacionalidades, os idiomas que separam, dividem e tornam os homens adversários, inimigos, gerando guerras. Um Natal que eleja o Esperanto (língua universal) como elo de ligação e entendimento entre os seres humanos. Um Universo sem policias, juizes, advogados, funcionários burocráticos, comerciantes, banqueiros; livre de hierarquias, de homens e mulheres ligados só pelo Amor, associados em comunidades de afinidade, autogestionárias, de grandes famílias capazes de produzir (cada um fazendo o que sabe ou pode e recebendo o que precisa), até alcançar a igualdade de acesso a alimentos, vestuário, transporte, moradia e demais bens materiais, educação, ensino e lazer de forma a proporcionar a felicidade de todos.

Nesse Natal por mim imaginado um homem só valia um homem e como tal todos teriam iguais direitos e deveres. Não haveria lugar para o ódio, rancor, inveja, a ambição, a ganância, ninguém se escravizaria para acumular fortuna, porque o dinheiro e a propriedade privada não existiriam mais, haviam sido abolidos. Seria um Natal sem negociatas, sem ninguém para comprar e vender produtos, indulgências, armas para matar gente e comprar consciências, a boa vontade de funcionários, da assistência médica, dos servidores públicos, enfim, não haveria corruptores, corruptos, nem ladrões…

No meu Natal não existiria gente dormindo nas calçadas, debaixo dos viadutos, nos bancos dos jardins, pocilgas sem luz, sem ar, nem gente estragando alimentos que faltam a milhões de crianças e adultos, num mundo que teimam em proclamar de civilizado e cristão. Cheio de gente enganando-se, envenenando e matando mutuamente, robotizadas e alienadas, vivendo em permanente conflito com o Ser e o Parecer, cada um disputando o seu espaço vital, sempre aperfeiçoando estratégias, cada vez mais sofisticadas, para suplantar os menos audaciosos e os mais dependentes.

Seria um Natal sem leis, expressão da vontade dos conquistadores, enunciando como querem governar os seus súbditos e que os outros lhes obedeçam.

Um Natal onde a felicidade de um fosse a felicidade de todos!

Em suma, imaginei um Natal impossível enquanto os seres humanos teimarem em viver às custas dos seus semelhantes, implantando, para isso, sistemas políticos e religiosos capazes de convencer (por meios "divinos", jurídicos ou pancada) os menos inteligentes e os acomodados que desde que o mundo é mundo sempre existiram pobres e ricos…

Eu discordo!

A natureza tudo deu de graça aos homens, por isso ninguém pode negar a esse mesmo homem o direito à sua parcela neste mundo que também é seu, que é de todos nós!

Será um Natal utópico, dirão! Mas é o que pode imaginar hoje um ateu: Um Natal de Todos. Humanista, por isso belo.

Edgar Rodrigues, pesquisador de história social e militante libertário.
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“Pai nosso”

PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU

onde exerces contra as tuas criaturas a mais feroz e desapiedada tirania, condenando-as ao medo, ao trabalho, à dor, à doença, à decrepitude, e – mais tarde- ao inferno da solidão eterna.

ESQUECIDO SEJA O TEU NOME

por todos aqueles que anseiam escapar ao teu sádico ódio e horrenda violência, e construir na nossa amada terra, e mediante as manos e a mente do nosso digno corpo, o reino da liberdade, da igualdade, da fraternidade, cujo único nome é: anarquia.

NADA QUEREMOS SABER DO TEU REINO

que é o Reino da Obediência, da Ameaça e do Terror infinito.

NÃO SE FAÇA MAIS A TUA VONTADE

que é uma vontade de Poder e domínio, a que os teus esbirros apodam de "Justiça divina", e na qual se acolhem os teus fariseus para justificar o emprego da lei e da força repressiva contra os rebeldes.

NEM NO CÉU

onde te deleitas na contemplação de ti mesmo e alimentas a tua imensa soberba escutando os coros e preces dos teus lacaios e as súplicas dos teus filhos afligidos

NEM NA TERRA

onde veio o nosso irmão Jesus, o homem, o de carne e osso – não o Espectro que está sentado à direita do teu trono -, para abolir o Poder, abolir todo o trono, toda a lei, toda a violência, toda a hierarquia, e levantar o reino do amor, a anarquia.

NÃO NOS DÊS O NOSSO PÃO DE CADA DÍA

nós mesmo o tomaremos, pois é o fruto da nossa inteligência, do nosso esforço e da nossa terra, e nada temos que pedir-te nem agradecer-te, pois nada é Teu, nada fazes, tudo fazemos nós.

NÃO PERDOES OS NOSSOS PECADOS

porque nada tens que perdoar-nos, visto que os nossos medos, os nossos vícios e debilidades, são o resultado desta natureza que não é obra tua, e nada te devemos, pois tudo o que temos, temo-lo pago já com séculos de sangue, suor e lágrimas.

COMO TÃOPUOCO NÓS NADA TEMOS QUE PERDOAR A NINGUÉM

pois temos aprendido que neste mundo não há bons nem maus, não há inocentes nem culpados, e que não temos outra alternativa que amar no lugar de julgar.

DEICHA-NOS CAIR NA TENTACÃO DE AMAR A NOSSA TERRA

e construir um paraíso de todos e para todos, aqui mesmo e agora.

E LIVRA-NOS DO MAL

Livra-nos de Ti.

AMEN