EZLN

COMUNICADO DO COMITÊ CLANDESTINO REVOLUCIONÁRIO INDÍGENA- Comandancia Geral do Ejército Zapatista de Liberación Nacional.

MÉXICO.

19 de junho de 2005

AO povo do MÉXICO:
AOS povos do MUNDO:

Hermanos e Hermanas:

A partir do dia de hoje, o Exército Zapatistas de Libertação Nacional decretou, em todo território rebelde, um

ALERTA VERMELHO GERAL.

Com base nisto lhes comunicamos:

Primeiro- que nestes momentos se está realizando o fechamento dos caracóis e os escritórios das Juntas de Bom Governo que se encontram nas comunidades zapatistas DE OVENTIK, LA REALIDAD, LA GARRUCHA, MORELIA E ROBERTO BARRIOS, bem como todas as sedes das autoridades dos diferentes municípios autônomos rebeldes zapatistas.

Segundo- que também se está procedendo a evacuação dos membros das diferentes Juntas de Bom Governo e das Autoridades Autônomas, para coloca-las em resguardo. Agora e por um tempo indefinido realizarão seu trabalho de forma clandestina e transladada. Tanto os Projetos como o governo autônomo se manterão trabalhando, ainda que em condições diferentes às que teve até agora..

Terceiro- que nos diferentes caracóis se manterão funcionando os serviços básicos de saúde comunitária. À frente deles estão civis, a quem o CCRI-CG do EZLN diferencia de quaisquer de suas ações futuras e para quem exigimos tratamento da sociedade civil e respeito a sua vida, liberdade e bens por parte das forças governamentais.

Quarto- que foram chamados as fileiras todos os membros do nosso EZLN que se encontravam fazendo trabalho social nas comunidades zapatistas e que foram alojadas nossas tropas regulares. Da mesma forma, suspenderam-se por um tempo indefinido todas as transmissões da Rádio Insurgente (www.radioinsurgente.org), "A VOZ DOS SEM VOZ", em frequência modulada e em onda curta.

Quinto- que, de maneira simultânea à publicação deste comunicado, está-se exortando às sociedades civis nacionais e internacionais que se encontram em trabalhos em acampamentos de paz e em projetos em comunidades, para que abandonem território rebelde ou, se é sua decisão livre e voluntária, permaneçam, por sua conta e risco, concentrados nos chamados caracóis. No caso de menores de idade, a saída é obrigatória.

Sexto- que o EZLN anuncia o fechamento do Centro de Informação Zapatista (CIZ) não sem antes agradecer às sociedades civis que participaram nele desde sua formação até o dia de hoje. O CCRJ-CG do EZLN desresponsabiliza formalmente estas pessoas de qualquer responsabilidade nas ações futuras do EZLN.

Sétimo- que o EZLN esclarece(deslinda) a todas as pessoas e organizações civis. Políticas, Culturais, Cidadãs, não governamentais, Comitês de solidariedade e grupos de apoio que se aproximaram a ele desde 1994, de quaisquer de nossas ações futuras. Agradecemos a todos e todas quem, com sinceridade e honestidade, nestes quase 12 anos apoiaram a luta civil e pacífica dos indígenas zapatistas pelo reconhecimento constitucional dos direitos e a cultura indígenas.

¡DEMOCRACIA!
¡LIBERDADE!
¡JUSTIÇA!

Das Montanhas do Sudeste Mexicano.
Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena- Comandancia Geral do Ejército Zapatista de Liberación Nacional.

Subcomandante Insurgente Marcos


México, no mês sexto do ano 2005

pACTO ASSOCIATIVO DA FAI

PACTO ASSOCIATIVO DA FEDERAÇÃO ANARQUISTA IBÉRICA

Princípios 

A F.A.I. constitui uma união federativa, isto é, livre, igualitária e solidária, de grupos de afinidade e, excepcionalmente, de individualidades. A sua função é assegurar a existência, na Ibéria, de uma efectiva coordenação das actividades dos diferentes grupos e indivíduos anarquistas, para que seja possível a realização de uma revolução social que, suprimindo a instituição-propriedade e o trabalho assalariado, instaure uma sociedade baseada no comunismo anárquico.

 

A F.A.I. luta por uma ordem não imposta, sem governo, sem autoridade de espécie nenhuma e sem exploração; uma ordem baseada na liberdade de cada ser humano, na igualdade social, no livre acordo, no apoio-mútuo e na solidariedade humana.

 

A F.A.I. é uma associação coerente e, consequentemente, internacionalista; encara a revolução social na Ibéria como parte integrante de uma revolução mundial anarquista. Opondo-se a qualquer forma de nacionalismo, colonialismo ou imperialismo, a FAI defende a existência de uma solidariedade prática entre as classes espoliadas, pobres e governadas do mundo inteiro, no quadro de uma luta revolucionária que vise a destruição do capitalismo internacional e a abolição das fronteiras nacionais: o seu objectivo mais amplo é a união federativa (livre, igualitária e solidária) das diversas comunidades, povos e regiões de todo o mundo.

 

A FAI combate o estado, sob todas as suas formas (monarquia, república, democracia, representativa ou popular, ditaduras de qualquer tipo…). Par esta federação, só através da acção dos oprimidos e a liquidação do Estado pelos próprios governados conduzirão à libertação do ser humano.

 

A FAI luta pela sociedade anarquista unicamente por meios anárquicos, através da acção directa, e não por meios políticos, reformistas e/ou legalistas.

 

Esta federação não é legalizável nem institucionalizável. A sua acção baseia-se unicamente na capacidade dos seus aderentes, na solidariedade anarquista internacional e na liberdade conquistada. A FAI não se move no terreno das “liberdades” concedidas e regulamentadas pelo Estado.

 

A FAI não fará qualquer tipo de acordo com instituições ou organizações de natureza política ou religiosa.

 

De acordo com a sua prática, que põe em causa o princípio metafísico ou religioso da autoridade, em que se fundamentam as várias formas de escravização dos indivíduos, esta federação declara-se racionalista e ateia. A FAI combate a religião, sob todas as suas formas.

 

Conforme as suas ideias anti-religiosas e racionalistas, esta federação luta pela instauração de um meio social que se baseie na liberdade individual e que tenha como objectivo o desenvolvimento integral de cada ser humano. Considera, por outro lado, que esse desenvolvimento individual não será possível separado da questão social e que só poderá existir dentro da sociedade livre preconizada.

 

A FAI combate os sindicatos burocratizados ou oficiais, dado que estes impedem o desenvolvimento da acção directa dos trabalhadores e procuram limitar as lutas sociais ao campo da legalidade democrática, visando transformar o proletariado numa peça ou componente domesticado do capitalismo democrático do chamado Estado de Direito.

 

A FAI recusa qualquer forma de cooperação com indivíduos, grupos e associações que, declarando-se libertários mas colaborando com instituições de poder, procuram transformar o movimento libertário num componente da sociedade democrática, por considerar que têm uma atitude anti-anárquica. A FAI só cooperará com quem recuse activa e coerentemente o Poder sob todas as suas formas.

 

MEIOS

 

A insurreição, anti-estatal e anti-capitalista, e a obra construtiva da revolução social constituem o objectivo global desta união federativa. O seu método é a acção directa, considerada na sua mais ampla e dinâmica expressão revolucionária e construtiva.

 

Através de um trabalho de propaganda especificamente anarquista, do exemplo prático construtivo e de uma intervenção prática em vários meios sociais contra as diversas manifestações concretas da usurpação estatal e capitalista, a FAI luta pela eclosão de um movimento insurgente, que ponha em causa a totalidade da sociedade autoritária, e pela capacitação dos oprimidos para as tarefas construtivas da revolução social.

 

CONSTITUIÇÃO E RELAÇÕES

 

A base fundamental da FAI são os grupos de afinidade e excepcionalmente, as individualidades federadas.

 

O apoio-mútuo constitui a principal relação que os federados estabelecem entre si.

 

A actividade e funcionamento da FAI baseiam-se em pactos livres.

 

Os federados estão vinculados entre si por este pacto associativo, que só pode ser alterado por vontade expressa de todos os aderentes, e por um livre acordo unânime sobre a estratégia da FAI.

 

ORGANIZAÇÃO, ADESÃO E QUOTIZAÇÃO

 

O comité Peninsular da FAI desempenha funções de carácter relacionador ou orgânico, e não funções de direcção ou executivas. Este Comité será eleito numa Conferência ou num Pleno, por prazo limitado, mas qualquer indivíduo que o integre, assim como o próprio Comité, é destituível a todo o momento.

 

Os Grupos de uma Localidade ou de uma Região poderão formar Federações locais ou Regionais e nomear Comissões Relacionadoras, com funções de carácter coordenador, relacionador ou orgânico, e não funções de direcção ou executivas. Estas C.R. serão nomeadas em plenos do âmbito correspondente.

 

A Conferência de Grupos é o órgão decisório máximo da FAI. Os acordos aí adoptados são vinculadores para todos os aderentes, e só poderão ser modificados noutra Conferência.

 

A FAI realizará plenos onde serão adoptados acordos que nunca poderão traduzir qualquer modificação dos acordos da Conferência. Nos Plenos será também coordenada a concretização dos acordos adoptados em encontros anteriores.

 

A pedido dos Grupos, o Comité Peninsular e as Comissões Relacionadoras poderão convocar Plenárias, que são reuniões de trabalho e confrontação de âmbito Local, Regional ou Peninsular. Os assuntos tratados nestas reuniões deverão estar restringidos ao âmbito da respectiva convocação.

 

Na FAI, os acordos são adoptados por unanimidade.

 

Dado que qualquer encontro é convocado com o conhecimento e a participação de todos os grupos e que todos têm a possibilidade de participar, directamente ou enviando, por escrito, os seus acordos, os grupos que não estejam presentes num determinado encontro nem tenham feito chegar a este os seus acordos, renunciam, consciente e responsavelmente, a participar nesse encontro, e, por conseguinte, aceitam e assumem os acordos que aí venham a ser adoptados.

 

Para que um indivíduo ou grupo adira a esta federação, é necessária uma proposta de um federado ou de um grupo nesse sentido e a aprovação de um Pleno do respectivo âmbito territorial. Qualquer adesão será ratificada num Pleno Peninsular.

 

Não poderão aderir a esta federação indivíduos que explorem o trabalho alheio, que exerçam funções na máquina repressiva ou que pertençam a organizações de carácter político ou religioso, à maçonaria ou outras seitas, ou a sindicatos cujos métodos e fins choquem frontalmente com os postulados anarquistas.

 

Cada grupo e cada aderente é plenamente responsável pelos seus próprios actos. Cada grupo será responsabilizado pelo cumprimento dos acordos que tenha adoptado

 

Nenhum federado pode violar o disposto neste pacto.

 

Cada grupo pagará mensal e directamente ao Comité Peninsular, ou através da Comissão Relacionadora do seu âmbito territorial, uma quota por federado, cujo montante será estipulado numa Conferência ou num Pleno. As quotas destinar-se-ão a custear os gastos inerentes ao funcionamento do Comité Peninsular e da Federação.

 

O pagamento destas quotas exprime a renovação mensal da adesão do grupo a esta federação. Em casos excepcionais em que o grupo não possa pagar, explicações pertinentes desse facto servirão de renovação da adesão. Por conseguinte, qualquer grupo que não apoie economicamente o conjunto da federação na quantia estipulada, e que não dê explicações apropriadas no primeiro encontro que for realizado desde que deixou de quotizar, será considerado voluntariamente fora da federação.

 

(Este Pacto Associativo foi adoptado em Conferência realizada em finais de 1996)

America x

 

“Operação Paperclip”: Dos V2 à Lua

– A aliança do Pentágono com os nazis –

 

Réseau Voltaire

 

No fim da Segunda Guerra mundial, o Estado-maior dos Estados Unidos pôs em acção a operação Paperclip sem o conhecimento do Presidente Roosevelt. Em alguns anos, quase 1500 cientistas nazis foram exfiltrados e recrutados para lutar contra a URSS comunista. Prosseguiram nomeadamente investigações sobre as armas químicas, sobre o uso dos psicotrópicos na tortura, e sobre a conquista espacial. Longe de os afectar a postos subalternos, o Pentágono confiou-lhes a direcção destes programas que marcaram com o seu cunho ideológico.

 

(fotomontagem)

 

Mal a Segunda Guerra mundial tinha terminado no teatro europeu, os Estados Unidos e a URSS entraram em rivalidade. A sua prioridade tornou-se pilhar o mais rapidamente possível o inimigo vencido, o IIIº Reich. O saber­­‑fazer tecnológico desenvolvido pelos cientistas alemães suscitou todas as cobiças embora fosse o fruto da exploração de uma mão­‑de­‑obra servil procedente dos campos de concentração.

 

Uma parte do Estado-maior estado-unidense, perturbada pelo que os seus homens descobriram em Dachau, em Auschwitz, em Dora, ordenou recolher o maior número de provas possível para um processo dos dirigentes nazis. Outros oficiais do Estado­‑maior consideraram pelo contrário que estes criminosos formavam um pessoal insubstituível que convinha pôr ao serviço do poder dos Estados Unidos. Uma operação militar de recuperação dos cientistas alemães que tinham trabalhado para o IIIº Reich foi por conseguinte montada pelo Pentágono. Chamada “Operação Paperclip”, foi confiada à Joint Intelligence Objectives Agency (JIOA) [1], que agrupava então o conjunto dos serviços de informação militares estado-unidenses. Como explicará mais tarde o seu director, Bosquet Wev, «o governo preocupava-se com “bagatelas” – os processos dos nazis – em vez de privilegiar “o interesse dos Estados Unidos, e desperdiçava as suas forças inutilmente ao querer golpear um cavalo nazi morto”» [2].

 

A operação defrontou vivas resistências ao mesmo tempo nos responsáveis políticos e no Estado-maior. A posição do presidente Franklin Delano Roosevelt era clara: interrogado por William Donovan, chefe do OSS, sobre a oportunidade de conceder privilégios aos oficiais SS e aos membros do ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, o presidente dos Estados Unidos recusou. Entre as pessoas assim recrutadas pelo OSS, «alguns deverão talvez simplesmente ser julgados por crimes de guerra ou pelo menos presos por terem participado de maneira activa nas actividades nazis», argumentou. Passando por cima da ordem presidencial, a JIOA tomou a decisão de falsificar os processos militares dos cientistas alemães que projectava exfiltrar para os Estados Unidos [3].

 

Os cientistas mais cobiçados no imediato foram os que fizeram pesar a ameaça mais pesada sobre o campo dos Aliados, ou seja, os responsáveis pela concepção dos temíveis mísseis V2. O seu chefe de fila era Wernher von Braun. Com a idade de apenas 32 anos em 1945, tratava-se de um dos mais brilhantes engenheiros da época. Desde os anos 1930, trabalhava sob a autoridade de Hermann Oberth, pai do foguete alemão. Juntou-se às SS e ao comando pessoal do chefe da organização, Heinrich Himmler, antes de obter a graduação de comandante. Durante a guerra, trabalhou no centro de Peenemünde no projecto de foguetes V2. Estes eram construídos na fábrica Mittelwerk, por pessoal vindo do campo de concentração de Dora.

 

O major das SS Wernher von Braun, 1943

Apresentação aos dignitários nazis do centro de investigação de Peenemünde onde foi concebida a “guerra das estrelas” e realizados os V2. Von Braun tornou-se ulteriormente o patrão da NASA.

 

Após a vitória dos Aliados, foi internado algum tempo em Garmisch pela equipa do coronel estado-unidense, Holger Toftoy, imbuído de um projecto louco: relançar com base em Forte Bliss, nos Estados Unidos, o programa de foguetes no qual trabalhava von Braun. Encarregou de resto este de convencer com ele os seus antigos colegas a juntar­‑se à aventura. A tarefa não foi muito difícil: a maior parte dos cientistas em causa corria o risco, se permanecem na Europa, de serem levados perante um tribunal por “cumplicidade em crimes de guerra”. Paralelamente, um dos directores da JIOA, E. W. Gruhn, encarregou-se de estabelecer uma lista dos cientistas alemães e austríacos mais qualificados para os fazer recrutar pelos seus serviços. Apoiou­‑se para isso em Werner Osenberg, que dirigiu a secção científica da Gestapo encarregada verificar a fiabilidade política dos cientistas que trabalhavam para o Reich. Os relatórios e processos da sinistra polícia permitiram a Osenberg estabelecer uma lista de quinze mil nomes de cientistas, mencionando as suas filiações políticas e o seu valor científico. Assim, como observou Linda Hunt, este método «favorecia a contratação de nazis convictos» [4].

 

O programa confiado a von Braun não obteve imediatamente os resultados esperados. Em Junho de 1947, o primeiro V2 alterado foi lançado da rampa de lançamento de White Sands Proving Ground, no Novo México. O foguete, montado a partir de peças alemãs encontradas em Mittelwerk, afastou-se da sua trajectória inicial para se ir esmagar do outro lado da fronteira mexicana, a menos de cinco quilómetros de um bairro sobrepovoado da cidade de Juarez. O que obrigou Washington a explicar imediatamente aos mexicanos que não queria em caso algum lançar um ataque de mísseis contra o seu país.

 

Nota desclassificada do chefe de Estado-maior da Força Aérea dos EUA datada de 2 de Junho de 1953 atestando que 820 cientistas nazis já tinham sido recrutados no âmbito da Paperclip.

 

A transferência de cientistas também implicados no aparelho nazi não podia passar­‑se sem obstáculos. Muitos dentre eles aceitaram este “exílio” apenas sob a ameaça de processos judiciais no seu próprio país. O que não era uma prova de fiabilidade. No melhor dos casos, consideravam colaborar com um aliado objectivo na luta contra a URSS. No pior, estavam decididos a compartilhar o menos possível as tecnologias que dominavam, ou vendê­‑las ao maior licitador. Estes problemas de resto foram identificados desde o começo da operação. Walter Jessel, tenente do exército estado-unidense, foi encarregado em 1945 de avaliar a lealdade dos cientistas antes de deixarem a Alemanha. O seu relatório, baseado em interrogatórios, concluiu que von Braun e os seus homens procuravam esconder as suas informações aos oficiais estado-unidenses. De acordo com o militar estado­‑unidense, dar-lhes confiança seria «um absurdo evidente». Depois de tudo, os cientistas alemães estavam, ainda muito recentemente, no campo inimigo. Apesar disso, nunca foram colocados sob estrita vigilância pelo comandante James Hamill, no entanto directamente responsável pelo grupo da Paperclip em Forte Bliss: «não somente (…) os membros da Paperclip eram autorizados a ter largamente acesso às informações secretas, mas (…) não havia nem recolher obrigatório, nem verificação do correio alemão». Além disso, «as actividades dos cientistas no exterior eram muito pouco controladas». O que testemunha, quer de uma ligeireza inacreditável, quer de uma confiança cega que não se pode explicar por simples ingenuidade.

 

UMA OPERAÇÃO DE «INTERESSE NACIONAL»

 

A opinião pública não reagiu a esta chegada ao território estado-unidense de antigos cientistas nazis. Tanto quanto ela foi desinformada cuidadosamente sobre o assunto. Em finais de 1946, o departamento da Guerra organizou mesmo um dia de porta aberta em Wright Field a fim de apresentar uma delegação de «cientistas alemães» à imprensa. Os artigos publicados na sequência desta iniciativa de pura propaganda passaram totalmente sob silêncio os antecedentes duvidosos destes engenheiros tão brilhantes. A ortodoxia do Pentágono pretendia que todos tinham “passado pelo crivo”. O subsecretário para a Guerra Patterson declarou nomeadamente que «nenhum cientista suspeito de crimes de guerra foi introduzido nos Estados Unidos». Na realidade, importantes dissensões existiam no próprio seio da base de Wright Field, onde vários militares estado-unidenses se indignaram por ter de trabalhar com «criminosos de guerra nazis». Theodor Zobel era assim acusado de ter «efectuado experiências sobre ser humanos quando dirigia as vidrarias de Chalais-Meudon, em França», uma informação confirmada por um relatório do OMGUS, a administração militar estado-unidense de Berlim. O perito de combustível de jacto, Ernst Eckert, viu reaparecer o seu passado de antigo membro das SA, seguidamente de membro do NSDAP a partir de 1938, e das SS em 1939. Mas a política do Pentágono consistia em proteger ao máximo os seus homens, prosseguindo ao mesmo tempo as exfiltrações. A partir do Verão de 1947, a JIOA lançou uma nova operação intitulada “Nacional Interest” (Interesse Nacional) que lhe permitiu recrutar toda a gama dos cientistas nazis, mesmo aqueles condenados por crimes de guerra. Propôs-lhes trabalhar para o exército ou para grandes empresas privadas, nomeadamente Lockheed, W. R. Grace and Company, CBS Laboratories e Martin Marietta. Otto Ambros foi daqueles que beneficiaram do programa. Director da IG Farben durante a guerra, participou na decisão de utilizar o Zyklon B (produzido por uma filial da IG Farben) nas câmaras de gás, e escolheu sozinho o campo de exterminação de Auschwitz para lá instalar uma fábrica. O que lhe permitiu fazer produzir por uma mão­‑de­‑obra em condições de escravatura gases asfixiantes que testava no lugar sobre prisioneiros, antes de o seu uso ser generalizado a todos os campos. Declarado culpado de esclavagismo e assassinatos em série em Nuremberga, beneficiou no entanto da clemência do tribunal e foi condenado apenas a oito anos de prisão. Durante o seu período de detenção, o seu nome foi mantido na lista de contratação da JIOA, que o recrutou aquando da sua libertação prematura por John McCloy, alto comissário estado­‑unidense para a Alemanha. Foi então integrado como “conselheiro” nos efectivos da W. R. Grace Company, da Dow Chemical bem como nos do US Army Chemical Corps.

 

OBJECTIVO LUA

 

Apesar das dificuldades encontradas no início do programa, a operação Paperclip cumpriu rapidamente as suas promessas em vários domínios, onde o Estado­‑maior não hesitou em colocar os “seus” cientistas nazis em postos chave. O mais emblemático foi o da conquista espacial, onde se distinguiu toda a antiga equipa do V2, que dirigiu praticamente a totalidade das investigações. Erigido em prioridade pelo presidente John F. Kennedy em 1961, o envio de um homem para a Lua foi confiado directamente aos engenheiros nazis da equipa de Wernher von Braun. Este último tornou-se o primeiro director do Marshall Flight Center, o centro espacial da NASA em Huntsville. Arthur Rudolph foi nomeado director de projecto para o programa do foguete Saturno V, o mesmo que atingirá a Lua em 1969. Durante a guerra, como chefe da produção em Mittelwerk, Rudolph estava encarregado nomeadamente de fixar o número de horas de trabalho realizável pelos prisioneiros vindos do campo de concentração vizinho de Dora. Enfim, o antigo membro das SS, das SA e de dois outros grupos nazis, Kurt Debus, tornou-se o primeiro director do Kennedy Space Center em Cabo Canaveral. A colaboração dos três homens permitiu aos Estados Unidos realizar um dos feitos mais espectaculares da sua história dado que, em 21 de Julho de 1969, Neil Armstrong pôs o pé na Lua. Uma verdadeira coroação para a cooperação científica entre o partido nazi e o Estado-maior estado-unidense.

 

Hubertus Strughold

Cientista nazi que coordenou experiências sobre a resistência

ao frio de deportados de Dachau. Recrutado pela Paperclip.

 

Mas não foi o único domínio onde esta cooperação chegou a excelentes resultados. No início dos anos 1950, o exército estado-unidense lançou um programa destinado a melhorar o conhecimento da saúde dos pilotos e dos cuidados a prestar­‑lhes em caso de acidente ou circunstâncias extremas, tais como o lançamento de pára­‑quedas a muito elevada altitude. Estas investigações foram centralizadas na Escola de Medicina Aérea de Randolph Field, no Texas, sob a direcção do general Harry Armstrong. Vários cientistas nazis trabalhavam ao seu lado. O mais eminente dentre eles era Hubertus Strughold. Este, após ter vivido nos Estados Unidos durante o período entre as duas guerras, tornou-se, durante o conflito, responsável do Instituto da Luftwaffe para a medicina aérea em Berlim. Um centro de sinistra memória: cientistas levaram aí a cabo experiências particularmente atrozes sobre prisioneiros de campos de concentração a fim de verificar a duração da resistência ao gelo, à absorção de água salgada e à falta de oxigénio. Oficialmente, Strughold não teria tido conhecimento destas experiências. No entanto, foram efectuadas pelos seus colaboradores mais próximos: Siegfried Ruff, responsável por experiências de simulação de elevada altitude (que tornavam os prisioneiros completamente loucos por falta de oxigénio) co­escreveu mesmo um livro de saúde aérea com ele. Ruff escapou de resto também a ser recrutado no âmbito da Paperclip, após ter sido miraculosamente ilibado em Nuremberga. Ainda hoje, o edifício da Força Aérea dos EUA em San Antonio leva o nome de Hubertus Stronghold.

 

EDGEWOOD ARSENAL: DO GÁS MOSTARDA AO CONTROLO DOS CÉREBROS

 

O código de Nuremberga, destinado nomeadamente a prevenir a repetição dos horrores nazis, bem como as leis que governavam a zona estado-unidense da Alemanha que proibiam aos alemães fazer investigações sobre a guerra química, não impediram o governo dos Estados Unidos de utilizar os cérebros nazis no âmbito da Paperclip, bem pelo contrário.

 

A base militar ultra-secreta de Edgewood Arsenal, no Estado de Maryland, era desde 1922 o principal centro de investigação médica sobre a guerra química nos Estados Unidos. Primeiro para testar os gases inventados pelos alemães durante a guerra, e mais tarde os métodos de manipulações psicológicas, numerosos cientistas da operação Paperclip levaram aí a cabo experiências de 1947 a 1966, frequentemente de maneira demasiado empírica e utilizando as cobaias que tinham à mão. O que não melhorou a imagem da Paperclip, mesmo entre o pessoal científico que estava baseado lá permanentemente. Assim, o director científico de Edgewood à época, o Dr. Seymour Silver, comentou os seus trabalhos nestes termos: «A sua apreciação geral tanto no que se referia à escolha dos sujeitos como sobre as próprias experiências era errónea, muito má». Ora num domínio dos gases de combate, dos gases incapacitantes e dos psicotrópicos, tais métodos tiveram consequências humanas terríveis.

 

Um dos primeiros nazis recrutados na base foi Kurt Rahr, segundo criminoso nazi importunado na Alemanha tanto por delitos de direito comum como pelo seu apoio ao IIIº Reich. Apesar de um relatório desfavorável que o julgava indigno de confiança e por conseguinte perigoso para a segurança dos Estados Unidos, a JIOA enviou este especialista da electrónica de elevada frequência para Edgewood em Setembro de 1947. Mas não lhe foram confiados trabalhos classificados secretos e era demasiado moderado segundo o gosto de Hans Trurnit, outro recruta importado em 1947 desta vez da elite científica nazi, que o acusou de ser comunista e o fez retornar à Alemanha. Titular na universidade de Kieldu de 1934 a 1940, Trurnit foi o assistente do professor Holzlöhner, que efectuou, durante a segunda guerra mundial, experiências relativas ao frio sobre prisioneiros de Dachau.

 

Mas a principal trunfo de Edgewood no âmbito da Paperclip permaneceu o químico Friedrich Hoffmann, ele também entre os primeiros chegados à base. Este antigo candidato às SA reprovado sintetizava durante a guerra os gases tóxicos e as toxinas para o laboratório de química de guerra da universidade de Würzburg e para o Instituto de investigações técnicas da Luftwaffe. Chegado aos Estados Unidos, foi encarregado de inventar novos modos de protecção e antídotos contra os dois gases mais mortais inventados pelos nazis que o Exército dos EUA dispunha, o Tabun e o Sarin, trazidos em grandes quantidades da Alemanha para os arsenais estado­‑unidenses. Com a ajuda dos relatórios sobre as experiências efectuadas nos campos de concentração e de cobaias escolhidas entre soldados da base, voluntários mas pouco informados sobre a realidade das experiências, tentou determinar quais os efeitos que estes gases produziam sobre o organismo. O protocolo experimental foi sumário: uma vasta sala foi arranjada como câmara de gás, lá se colocaram animais e soldados a quem se pediu para tirarem a sua máscara de gás e respirarem doses de veneno até que não o suportassem mais. Assim o contou o soldado Don Bowen, após ter visto todos os animais da sala agonizar em atrozes sofrimentos: «O meu primeiro reflexo foi não respirar. E quando finalmente tomei uma longa inspiração, o gás queimou­‑me o nariz, a garganta e os lábios». Numerosas cobaias foram assim hospitalizadas por diversas perturbações após terem respirado fracas doses de gás mostarda ou Tabun.

 

O LSD, ARMA DE GUERRA PSICOLÓGICA

 

Em 1949, os cientistas da Paperclip baseados em Edgewood viram ser­‑lhes confiada uma nova missão: testar um psicotrópico surpreendente, que provocava alucinações e tendências para o suicídio nos seres humanos. Tratava-se do LSD, descoberto alguns anos antes por um outro Hoffmann, Albert desta vez, nos laboratórios Sandoz de Basileia [5]. A sua utilização devia, de acordo com o seu principal promotor L. Wilson Greene, tornar possível uma guerra mais humana. O objectivo era com efeito à partida determinar se se podia recorrer ao LSD e a outras seis dezenas de outros psicotrópicos para efectuar uma guerra “psicoquímica” destinada a enfraquecer a população e as tropas inimigas. Mas progressivamente, com a subida em potência da Guerra Fria e a multiplicação das operações de contra­‑insurreição, a CIA açambarcou o projecto e focalizou-o na condução dos interrogatórios e nos meios para quebrar a resistência psicológica do interrogado, para provocar dissociações psicológicas e estados de amnésia [6].

 

As fontes de informações da CIA para a guerra química eram essencialmente cientistas alemães que tinham trabalhado para a IG Farben (a sociedade que produzia o gás Zyklon B utilizado nos campos de concentração), como Walter Reppe, o seu antigo químico chefe, que os Estados Unidos tentaram recuperar em vão em 1948, enquanto trabalhava já para os britânicos. Um vasto recenseamento das plantas psicotrópicas foi empreendido por Friedrich Hoffmann a fim de desenvolver o “soro da verdade” ideal.

 

Deram-se igualmente importantes doses de LSD a soldados-cobaia de Edgewood antes de os submeter a interrogatórios agressivos que provocaram neles estados de medo intenso, ou mesmo em certos casos convulsões, epilepsia ou crises de paranóia agudas que deixaram numerosas sequelas.

 

As investigações sobre a amnésia, quanto a elas, conduziram à utilização do Sernyl (SNA), conhecido igualmente sob o nome de PCP ou “poeira de anjo”, que se administrava por via oral ou em aerossol a soldados enquanto marchavam sobre um tapete rolante. Acessos de loucura intensa, de amnésia total e outros comas foram observados nos laboratórios de Edgewood.

 

Entre os mais virulentos nazis da Paperclip que participaram nas investigações sobre a guerra química e psicológica, figurava igualmente o antigo brigadeiro­‑general Walter Schieber (empregado durante 10 anos), que tinha supervisionado as fábricas de armamento francesas sob a ocupação, as fábricas alemãs que empregavam STO e o programa nazi de guerra química. Encarcerado em 1945 porque suspeito de crimes de guerra, salvou a sua pele redigindo relatórios sobre a guerra química para o Exército dos EUA, apresentando-se como testemunha vedeta em Nuremberga para ser integrado na Paperclip em 1947.

 

Somente no período entre 1955 e 1975, sete mil soldados foram utilizados como cobaias involuntárias; gaseados, asfixiados, drogados para as investigações sobre o controlo do cérebro.

 

UM ELEMENTO DE UMA POLÍTICA

 

O fim da aventura foi lastimoso. A partir do início dos anos 1970, os créditos militares atribuídos aos programas dos cientistas da Paperclip diminuíram. Em 1971, restrições orçamentais atingiram duramente o programa espacial, e muito particularmente os engenheiros alemães. Arthur Rudolph reformou­‑se, recebendo de passagem a mais alta distinção da NASA, a Medalha por Distinção em Serviço. No mesmo ano, Wernher von Braun foi obrigado a testemunhar perante procuradores da Alemanha Ocidental encarregados de inquirir sobre os crimes cometidos no campo de concentração de Dora. Imediatamente depois, teve de abandonar o seu sonho secreto de se tornar administrador geral da NASA. Em 1974, foi a vez de Kurt Debus se reformar. Dez anos mais tarde, em 1984, enquanto ressurgiam as acusações de crime de guerra contra Arthur Rudolph, este último foi obrigado a deixar os Estados Unidos por Hamburgo.

 

No total, os diferentes programas da Operação Paperclip mobilizaram quase 1500 cientistas nazis para lutar contra a URSS. Eles atestam a escolha do Estado­‑maior inter­‑armas dos Estados Unidos de colaborar com o partido nazi apesar do veto do presidente Roosevelt. Uma escolha ulteriormente validada pelo presidente Truman e içada ao nível de uma política federal sistemática. Com efeito, sob o controlo do Conselho de Segurança Nacional, operações similares foram conduzidas paralelamente noutros domínios para recuperar e integrar os quadros nazis bem como os quadros do sistema militar japonês no aparelho de segurança dos Estados Unidos ou para os empregar em operações secretas no estrangeiro.

 

__________

[1] A Joint Intelligence Objectives Agency foi criada em 1945, sob a tutela do Joint Intelligence Commitee (JIC), o serviço de informação do Estado-maior inter­‑armas. O JIC era composto pelo director dos serviços de informação do exército, pelo seu homólogo da Marinha, pelo vice-director do Air Staff-2 e por um representante do Departamento de Estado. Records of the Office of the Secretary of Defense (Record Group 330), página do Interagency Working Group.

[2] Linda Hunt, “US Coverup of Nazi Scientists”, Bulletin of the Atomic Scientists, Abril de 1985, p. 24.

[3] O chefe do Estado-maior do Exército dos EUA era então Omar N. Bradley.

[4] Linda Hunt, L’Affaire Paperclip – La récupération des scientifiques nazis par les Américains 1945-1990, Stock, 1995. (1ª ed. 1991).

[5] A utilização da molécula que Albert Hoffmann tinha experimentado ele mesmo de maneira trivial, desta vez no âmbito das experiências de Edgewood, seguidamente da operação “MK ULTRA” para o controlo da contracultura, levá-lo-á mais tarde a chamá­‑la a sua «criança terrível».

[6] Ver igualmente, a este respeito, Arthur Lepic, Les manuels de torture de l’armée des États-Unis, Voltaire, 26 de Maio de 2004.

 

Sobre o determinismo

Muitas objecções podem ser feitas a esta visão do mundo (Weltanschauung), limitar-me-ei, no entanto, a enunciar algumas.

 

Em primeiro lugar, a ideia de um processo histórico ou esquema rígido, em que as fases encaixam umas nas outras como peças de um puzzle, não passa de uma concepção datada, típica do século XIX, baseada no banal evolucionismo. É violentar os factos, silenciar as descontinuidades, calar as discrepâncias, ocultar o que devia e podia ter dito, assim como as oportunidades perdidas. Um exemplo, entre outros: em que é que a queda do Império Romano substituído pelo mundo bárbaro foi um progresso necessário e não um flagrante retrocesso histórico? E a substituição do paganismo pelo cristianismo? E não será intolerável que nos venham por hipótese, dizer que devemos fatalmente passar por Coimbra, se quisermos viajar de Lisboa para o Porto? E se quisermos viajar de barco ou de avião, ou fazer muito simplesmente um maior desvio pelo interior? Mais ainda e há que dizê-lo, sem qualquer espécie de saudosismo: as brilhantes conquistas obtidas – sempre consideradas imprescindíveis , quando analisadas a posteriori – poderão fazer-nos esquecer o que irremediavelmente se perdeu? E os vencedores tiveram sempre razão?

 

Em segundo lugar, a ideia de progresso é altamente subjectiva e contestável. Dir-se-ia que as mais das vezes não houve qualquer progresso, mas apenas pretextos para se fazer bons negócios. Como se a humanidade, em vez de andar para a frente, andasse de lado, nunca parando de contornar os obstáculos que o Estado e o Capital constituem, nunca os saltando, para ver o que está do outro lado. Os politólogos modernos bem podem dourar a pílula, criar o conceito grotesco de desenvolvimento político, para fazerem ombrear com o de desenvolvimento económico e nos fazerem aplaudir a democracia representativa, mas o resultado é sempre o mesmo: igual a zero ou tendendo para o zero. Já Proudhon gozava com essa tendência de se discutir ad eternum sobre o governo ideal, sem nunca se compreender que o governo ideal não existe e que devemos atirar todos eles para o caixote do lixo. Quanto aos economistas, por mais robotizações e computadores que nos atirem à cara, não nos conseguem fazer admitir que o regime do trabalho assalariado seja substancialmente diferente da escravatura ou da servidão da gleba, nem fazer-nos esquecer o desemprego, o subemprego, o trabalho infantil, a precariedade dos contratos a prazo ou a miséria do Terceiro Mundo.

 

Em terceiro lugar, análise marxista das sociedades ditas primitivas e as suas bases antropológicas (Morgan e Engels) estão completamente erradas e ultrapassadas. Na história da humanidade, a pastorícia nómada não precedeu a agricultura sedentária, que é muito mais antiga. A simples introdução do cavalo europeu no continente americano fez com que tribos inteiras involuissem da agricultura sedentária, considerada posterior, para a fase dos colectores-caçadores nómadas, considerada anterior. Marshall Salins provou que as noções de escassez e abundância são muito relativas e que, num meio ecologicamente muito menos degradado e mais favorável, a idade da pedra foi a primeira sociedade de abundância, qualitativamente muito diferente da miséria do chamado «comunismo primitivo». E Pierre Clastres, na obra «A sociedade contra o Estado», demonstrou a complexidade dessas sociedades sem escrita, disse que eram numericamente muito mais importantes que o que se julga (análise de demografia ameríndia e das matanças que os civilizados europeus lá fizeram, bem como as doenças que levaram aos «selvagens» e dos terríveis choques virais), estudou as suas chefias sem poder coercivo e concluiu que imensas zonas geográficas sem exploração económica eram também zonas ocupadas por sociedades, não apenas sem Estado, o que pode dar a ideia de uma «carência», mas essencialmente viradas já contra o Estado.

 

Em quarto lugar, o optimismo demográfico da escola marxista, que nunca tomou a sério os argumentos do malthusianismo e sobretudo do neo-malthusianismo, deixa muito a desejar. Já se sabe que não é o excesso de população que está na base de todas as desgraças, como o capitalismo pretende para se dar boa consciência, mas ante a pilhagem de recursos naturais não ilimitados e a utilização em larga escala de fontes energéticas não renováveis, só restam duas alternativas, para falarmos como Maurice Laisant: a pílula ou a Bomba. E se não quisermos para o futuro a chamada «socialização da miséria», de que falava Marx e a única que, até à data, as classes possidentes e dominantes estão prontas a oferecer-nos, o problema da progressão geométrica populacional tem de ser encarado muito a sério.

 

Finalmente em quinto lugar, o determinismo marxista leva ao imobilismo, a uma atitude expectante e ansiosa e à desmobilização geral. O exemplo da social-democracia alemã é o caso maior que afirmo. Com os seus grandes chefes Ferninand lassalle, Karl Marx, Fredrich Engels, Wilhem Liebnecht, Bebel e, depois, Kautsky e Bernstein, atascou-se na colaboração, no oportunismo parlamentar, no patriotismo e no belicismo – ou não existissem dois militaristas ou peritos militares, entre os seus dirigentes, como Bebel ou Engels -, enquanto aguardava que a pêra caísse de madura (o capitalismo). Participou com entusiasmo na guerra de 14-18, esmagou os conselhos da Baviera e os motins antimilitaristas, matando os seus dissidentes Karl Liebnecht e Rosa Luxemburgo, tal como o anarquista Gustav Lanauer, e opôs uma mole e ineficaz resistência à ascensão do nazismo, no que foi secundada pelos dois partidos comunistas existentes. Depois, muitos dos seus membros aderiram a um certo partido nacional-socialista, provando que o nazismo não é apenas um fenómeno de direita do Estado e do Capital, mas também da sua esquerda… Mas já estamos a ver a abjecção maior dos marxistas ortodoxos: talvez a acumulação do Capital ainda não fosse suficiente! Com o caso russo, já as coisas mudam de feição. Embora se trate-se de um país menos desenvolvido (a social-democracia menchevista e a social-democracia bolchevista ainda não tinham assassinado completamente a vontade e as forças vitais dos oprimidos, até porque diga-se o que se disser, eram forças minoritárias), isso não o impediu de o lançar na revolução de 1905, depois nas revoluções de 1917 e, por fim em 1921, na terceira revolução (Kronstadt), esmagada pelo poder bolchevista. Claro que apareceram sempre a social-democracia marxista e o socialismo possibilista para vampirizar o esforço popular – primeiro sobre a forma de Kerensky (vagamente socialista), a seguir, sob a forma de Lénine (bolchevista) -, mas todos esses movimentos multitudinários provam a falácia do fatalismo marxista. E o tão celebrado ou vituperado voluntarismo leninista – considerado uma inconsequência de país atrasado, pelos especialistas da marxologia – não passa, ao fim e ao cabo, de um falso voluntarismo. Lénine, como todo o bom marxista, desconfiava do proletariado russo, segundo ele ainda demasiado cru, odiava e desprezava os camponeses sem terra, confundindo-os com os proprietários, e queria apenas que o seu partido substituísse o czarismo e desempenhasse o papel da burguesia, no desenvolvimento das forças produtivas e na acumulação do Capital. Tirava do sal para pôr na salmoura e punha o seu falso voluntarismo ao serviço do determinismo marxista!

 

Júlio Carrapato

O MEDO GLOBAL

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

 

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida

 

Os automobilistas têm medo de caminhar e os peões têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.

 

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.

 

É o tempo do medo.

 

Medo da mulher à violência do homem e medo do homem à mulher sem medo.

 

Medo dos ladrões, medo da policia.

 

Medo da porta sem fechadura, ao tempo sem relógios, ao menino sem televisão, medo da noite sem pastilhas para dormir e medo do dia sem pastilhas para despertar.

 

Medo à multidão, medo da solidão, medo ao que foi e ao que pode ser, medo de morrer, medo de viver.

 

Eduardo Galeano

Competição vs apoio mutuo

Porque é que o mundo está repleto de violência  e agressividade? Porque é que que são tão frequentes as hostilidades e as crueldades entre os homens? Porque é que, se somos tão inteligentes não podemos evitar o caminho para a autodestruição? Qual pode ser a resposta? A mais cómoda é afirmar que o homem é um ser agressivo por natureza, e como tal fica justificado que haja guerras, miséria, exploração do homem pelo homem. As mal interpretadas teorias darwinistas sobre a origem do homem e a sua evolução, que giram em torno da ideia da selecção natural e adaptação ao meio dos mais fortes, que sufocam os mais débeis, dá lugar a uma concepção do ser humano como um ser egoísta, agressivo e competitivo.

Nós não partilhamos dessas teorias, pois temos em conta que, por um lado, é o instinto de sociabilidade e apoio mutuo que, tanto nos animais não humanos como nas pessoas, tem permitido a evolução e adaptação através do tempo e por outro lado é a condição de educabilidade do homem e da mulher que nos faz aprender formas de comportamento como a violência, a agressividade o egoísmo. Tudo isto não é tirado da manga, pois são numerosos e rigorosos, mas pouco difundidos, os estudos que corrigem essa ideia básica acerca das pessoas e animais. Damos importância ao tema pois considerar que as sociedades humanas avançam por essa luta voraz entre os seus elementos apoia as ideologias liberais burguesas (o que trabalha e é inteligente merece um ponto alto na sociedade: mentira) e fascistas (a superioridade de umas raças sobre outras).

Nós pensamos que o erradamente chamado instinto de agressividade ou de competitividade tem a sua causa na educação autoritária, na propriedade privada e no modelo patriarcal. O ser humano sobreviveu durante quatro milhões de anos e é em uns milhares nos quais nos temos “civilizado”, que estamos a conseguir acabar com o mundo inteiro. O que tem mais peso, o instinto de sociabilidade, apoio mutuo e solidariedade que prevaleceu durante tanto tempo ou esta civilização vaidosa que está a matar-nos a ritmo acelerado?