rescaldo

Nestas ultimas eleições devemos considerar que os grandes derrotados não foram, a coligação sui generis PPD/PSD/PPM/PT nem o parolo integralista CDS/PP que tinha um rascunho de acordo proto-coligante com a coligação anterior; mas tão somente o movimento anarquista em Portugal, que continua, apesar das crises continuas e permanentes geradas pelo capitalismo nacional e todo o neo-liberalismo global, a não conseguir enraizar os seus valores na verdadeira maioria da sociedade Portuguesa que são os abstencionistas (3.072.037 indivíduos contra os 2.573.654 votantes do PS).

 

Apesar de tudo os números são eloquentes, 34,97% dos votantes já não acreditam neste sistema, dentro deste numero estarão certamente muitos simpatizantes da anarquia, do autogoverno.

 

Resta-nos continuar a lutar quotidianamente  por um mundo novo, livre e federado.

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Abstenção

Sobre a abstenção

 

O charlatanismo político do Estado exprime-se de maneira, a um tempo, singela e cívica, através de um rectângulo de papel, onde até os mais letrados rabiscam uma cruz: o boletim de voto. Como nas apostas mútuas desportivas… Se fizermos abstracção do aparato que rodeia as urnas, da composição das mesas, do dispositivo de segurança, das técnicas de contagem dos sufrágios expressos, da solenidade do momento e o facto do dia escolhido ser, em geral, um domingo ou dia feriado, o método é dos mais simples, para dizer dos mais simplórios…

… Depois dos candidatos se terem copiado uns ao outros, prolixamente, é permitido as máquinas votantes exprimirem-se á sua maneira, laconicamente. E como o peso do número é quem mais ordena, há sempre maços de rectângulos de papel que saiem democraticamente vencedores. É então que intervém o fenómeno estranho a que podemos chamar « o mistério do boletim de voto ». Duma simples cruzinha feita de quatro em quatro anos…

… brotam, pelos vistos, todas as indicações, todas as orientações, todas as terapêuticas, que devem pautar o comportamento dos eleitos, para que justiça se faça e seja respeitada a vontade integral e imperativa dos representados. A política económica, o orçamento geral do Estado, o combate á inflação e ao desemprego, a racionalização da exploração do material humano e dos recursos naturais misturados com os outros « elementos de produção », a verdadeira distribuição do rendimento nacional, o direito elementar de um poiso chamado habitação, etc, tudo se encontra, por incrível que pareça, escrito nas estrelinhas duma cruz _ Dizem os exegetas, uma mão no peito, a outra sobre a constituição…

… O quê?, Como pode uma simples cruz ser tão eloquente? Como pode alguém que me representa, ainda por cima contra a minha vontade, saber melhor do que eu aquilo que quero?.

 Que o boletim de voto, pela boca dos utentes, tenha ilusões sobre si mesmo_ isso é lá com ele…

…Pouco importa que haja um partido ou vários a fingirem que conquistam, mas a serem conquistados pelo poder,…

… chegou-se a tal ponto que, se rebentasse uma greve de zelo bem preparada, que, fingindo aceitar a filosofia do Estado de direito, aplicasse escrupulosamente todas as leis, decretos, regulamentos e por aí fora na hierarquia das normas jurídicas publicadas até este dia e ainda no todo ou em parte em vigor, haveria tantas ordens contraditórias, ridículas, extravagantes, vexatórias, que a mega- máquina tremeria dos pés á cabeça… ou pelo menos teria um rascante ataque de tosse!…

… Quem sabe?, talvez saibam porque vibram, porque têm a falsa consciência de entusiasmar-se, num mundo sem alegria, nem entusiasmo.

 Não são eles que têm os livros e democraticamente monopolizam, para maior proveito e fastio de todos nós?

 Sufrágio universal directo e secreto!…

 …É o que acontece nos nossos dias. Em todos os países onde vigora esse disfarce púdico da tirania brutal do Estado chamado democracia, o sufrágio é universal. Todos os cidadãos são iguais diante da lei e do voto – única forma de igualdade que a burguesia admite. No que respeita à liberdade de não votar, de se abster, a burguesia e os estratos sociais culturalmente próximos que lhe fazem concorrência, quando não a proíbem expressamente, como no Brasil e nos países onde o “direito” de voto é obrigatório, desaconselham-na vivamente… Uma greve eleitoral tiraria a máscara a um poder que não precisa de eleições, para se exercer quotidianamente em casa, na fábrica, no campo, no escritório, na caserna… por isso, a abstenção consciente é a única atitude radical diante do problema especifico do sufrágio…

 …Não há regimes melhores nem piores.

 A mudança dos regimes só comprova a continuidade do sistema… este sistema é absurdo.

 Se há verdadeiramente actos que homens devem ordenar, permitir e proibir, seria interessante determinar esses actos pela lógica. Se não há, os políticos não são mais qualificados que os outros Homens/Mulheres, para os determinarem.

 Como se estabelece a verdade? Como se determina a ciência?

 Nomeiam-se delegados para esse efeito? – Não. O que destrinça a verdade não foi delegado por ninguém. Muitas vezes, ele não tem nem diplomas nem dignidades.

 – Vota-se em matéria cientifica? – Não. O voto nada prova. Galileu era o único a dizer que a terra gira em volta do Sol. Minoria, ele tinha no entanto razão contra a pretensa maioria. – Impõem-se a ciência pela força? – Não. Diz-se aos Homens/Mulheres: “aqui está ela. Aqui estão as provas. Imporeis a vós próprios o que tiverdes reconhecido justo”.

 

Carbonária Anarquista

Eleições

Liberalismo e Socialismo

Os liberais querem a liberdade, os socialistas, querem a igualdade. Mas só o liberalismo ou só o socialismo não satisfaz. A liberdade sem igualdade significa que os pobres e os fracos são menos livres que os ricos e os fortes e a igualdade sem liberdade significa que somos todos escravos em conjunto. A liberdade e a igualdade não são contraditórias, mas complementares: em vez da velha polarização liberdade-igualdade segundo a qual mais liberdade significaria menos igualdade e vice-versa , os anarquistas fazem notar que, na prática, não se pode ter uma sem outra. A liberdade não é autêntica se alguns forem demasiado pobres ou demasiado fracos para dela gozarem e a igualdade não é autêntica se alguns forem governados por outros. A contribuição decisiva dos anarquistas para a teoria política é a constatação de que liberdade e igualdade são afinal de contas a mesma coisa.

 O anarquismo diferencia-se também do liberalismo e do socialismo pela sua concepção do progresso. Os liberais vêem a história como um desenrolar linear que vai da selvajaria, da superstição, da intolerância e da tirania até a civilização, à cultura, à tolerância e à emancipação. Há avanços e recuos, mas o verdadeiro progresso da humanidade vai no sentido dum sombrio passado para um futuro radioso. Os socialistas vêem a história como um desenvolvimento dialéctico que passa pelo despotismo, pelo feudalismo e pelo capitalismo e vai até ao triunfo do proletariado e à abolição do sistema das classes. Há revoluções e reacções, mas o verdadeiro progresso da humanidade continua a ir dum triste passado para um belo futuro.

 Os anarquistas consideram o progresso de maneira totalmente diferente, na realidade, consideram muitas vezes que não há progresso algum. Nós vemos a história não como um desenrolar linear ou dialéctico numa determinada direcção, mas como um processo dualista. A história de todas as sociedades humanas é a história duma luta entre governantes e governados, entre opulentos e miseráveis, entre os que querem comandar e ser comandados e os que querem libertar-se, assim como aos seus camaradas; os princípios de autoridade e de liberdade, de governo e de rebelião, de Estado e de sociedade estão em perpétuo conflito. Esta tensão nunca é resolvida; o movimento da humanidade vai tanto num sentido, como no outro. O nascimento dum novo regime ou a queda dum antigo não são rupturas misteriosas no desenvolvimento ou patamares de passagem ainda mais misteriosos nesse desenvolvimento são apenas acontecimentos. Os acontecimentos históricos são bem vindos na medida em que aumentam a liberdade e a igualdade para toda a gente, não há nenhuma razão para chamar bom o que é mau, simplesmente porque é inevitável. Nós não podemos fazer nenhuma previsão útil para o futuro e não podemos estar certos que o mundo será melhor. A nossa única esperança é que, à medida que o conhecimento e a consciência se desenvolvem, as pessoas tornar-se-ão mais aptas para descobrirem que podem organizar-se sem necessidade de nenhuma autoridade.

 Não obstante, o anarquismo deriva do liberalismo e do socialismo,  histórica e teoricamente. O liberalismo e o socialismo precederam o anarquismo e este nasceu da oposição daqueles; a maioria dos anarquistas foram primeiro liberais, ou socialistas, ou ambas as coisas. O espírito de revolta está raramente plenamente desenvolvido à nascença e geralmente leva mais ao anarquismo do que dele provem. Em certo sentido, os anarquistas permanecem sempre liberais e socialistas e, cada vez que rejeitam o que há de bom em cada uma dessas teorias, traem um pouco o anarquismo. Por um lado, apoiamo-nos na liberdade de expressão, de reunião, de movimento, de comportamento e particularmente na liberdade de se ser diferente; por outro lado, apoiamo-nos na igualdade das posses, na solidariedade humana e particularmente na partilha das possibilidades de decisão. Somos liberais, mas mais que isso; somos socialistas e mais que isso.

 No entanto, o anarquismo não é apenas uma mistura de liberalismo e de socialismo; isso é a social-democracia, ou o capitalismo de abundância. Devamos nós o que devermos aos liberais e aos socialistas, por muito próximos deles que estejamos, somos fundamentalmente diferentes deles e dos sociais-democratas porque rejeitamos a instituição do governo. Todos contam com o governo: os liberais, ostensivamente, para preservarem a liberdade, mas na verdade para impedirem a igualdade; os socialistas, ostensivamente, para preservarem a igualdade, mas na verdade para impedirem a liberdade.

 Mesmo os liberais e os socialistas mais extremistas não podem prescindir do governo, do exercício da autoridade de alguns sobre os outros. A essência do anarquismo, a única coisa sem a qual não há mais anarquismo, é a recusa da autoridade de um homem sobre outro.

Democracia e Representação

 Muitas pessoas opõem-se a um governo antidemocrático, mas os anarquistas distinguem-se delas opondo-se também aos governos democráticos. Há outras pessoas que se opõem aos governos democráticos, mas os anarquistas distinguem-se delas não se opondo de maneira alguma porque receiem ou odeiem o governo do povo, mas porque crêem que a democracia não é o governo do povo que a democracia é na realidade uma contradição lógica, uma impossibilidade física. A verdadeira democracia só é possível numa pequena comunidade, onde cada um pode tomar parte em todas as decisões; nesse momento, já não é necessária. Aquilo a que se chama democracia, e que se pretende que é o governo do povo por si mesmo, é na realidade o governo do povo por governantes eleitos e dever-se-ia antes chamá-lo «oligarquia consentida».

 O governo exercido por chefes que se escolheu, é diferente e geralmente melhor de que o governo em que os chefes se escolheram a si mesmos, mas é ainda o governo de alguns sobre outros. Mesmo no governo mais democrático, há sempre os que ordenam ou proíbem, e os que obedecem. Mesmo quando somos governados pelos nossos representantes, continuamos a ser governados, e desde que eles começam a fazê-lo contra a nossa vontade, deixam de ser nossos representantes. A maioria das pessoas admite que não se tem nenhuma obrigação para com um governo no qual ninguém se pode fazer ouvir; os anarquistas vão mais longe e sublinham que não temos nenhuma obrigação para com o governo que elegemos. Podemos obedecer-lhe porque estamos de acordo ou porque somos demasiado fracos para desobedecer, mas nada nos força a obedecer-lhe quando estamos em desacordo e somos suficientemente fortes para nos recusarmos a fazê-lo. A maioria das pessoas admite que os que são afectados por uma mudança deveriam ser consultados antes que uma decisão seja tomada: os anarquistas vão mais longe e sublinham que deveriam ser os próprios interessados a tomar a decisão e a pô-la em aplicação.

 Os anarquistas rejeitam portanto a idéia do contrato social e a da delegação dos poderes. Sem dúvida alguma, na prática, a maior parte das coisas serão sempre feitas por aqueles que estão interessados num problema e são capazes de resolvê-lo , mas não há nenhuma razão para que os interessados sejam escolhidos por selecção ou eleição. Eles emergirão sempre de qualquer maneira, e é melhor que isso se faça naturalmente. O importante é que os leaders e os peritos não sejam forçosamente chefes, que a experiência e a capacidade de organização não estejam necessariamente ligadas à autoridade. Pode acontecer que a representação seja útil: mas o verdadeiro representante é o delegado ou o deputado que é mandatado por aqueles que o enviam e que pode ser revogado imediatamente por eles. De certo modo, o chefe que reivindica a representatividade é pior que o usurpador, porque é mais difícil atacar a autoridade quando esta tem por embalagem bonitas palavras ou argumentos abstractos. Que nós possamos eleger os nossos chefes de tempos a tempos não significa que devamos obedecer-lhes o resto do tempo. Se o fazemos, é por razões práticas e não morais. Os anarquistas são contra os governos, tenham eles chegado ao poder seja de que maneira for.

 

O que fazer?!

 Nas próximas eleições não vás votar, organiza-te num grupo de afinidade que rejeite a autoridade até no seu próprio seio, num grupo anarquista. Une-te na organização anarco-sindicalista. Apoia a Federação anarquista Ibérica e a Internacional de Federações Anarquistas. Lê, informa-te, participa nas acções de cultura e propaganda libertárias e nas suas manifestações.

 Não esqueças que a cultura é uma arma contra a autoridade.

 Não ofereças através do voto a tua capacidade de decidir, não esqueças que o indivíduo é a célula mais importante da sociedade e jamais será alienado se for consciente, rebelde, revolucionário.

 

Saúde e anarquia

 Carbonária Anarquista

 

Associação Internacional dos Trabalhadores (Internacional anarco-sindicalista) apart. 50029 /1701-001 Lisboa

Federação Anarquista Ibérica – Apart. 1041 / 2681- 901 Camarate

Centro de Cultura Libertária – Apart. 40 / 2801 Almada

Fevereiro de 2005