anticlericalismo – Eduardo Valadares

      Os discursos e práticas anarquistas produzidos no final do século XIX e no princípio do século XX revelam uma vasta tentativa de subversão dos costumes vigentes. Os militantes libertários pareciam ser dotados de uma verve inesgotável na crítica ao instituído. Entre as mais significativas oposições destacava-se um manifesto anticlericalismo e a defesa de uma extensa secularização da vida. Os libertários, mais do qualquer outra corrente do Movimento Operário, odiaram a Igreja Católica. "A importância do anticlericalismo para a doutrina e propaganda anarquista era muito grande e conjugava tanto a defesa que faziam do livre pensamento dos homens, quanto com sua crença no progresso social orientado pela ciência e pela experiência."(2) 

      Os libertários eram incansáveis nas denúncias de que o Estado traz privilégios e miséria e a Igreja, sua Intima aliada, viola as consciências. Sempre tentavam mostrar que a vida miserável dos trabalhadores não era decorrente de uma vontade divina, e sim da união existente entre os capitalistas e seus aliados, a Igreja e o Estado. Para Bakunin: "A abolição da Igreja e do Estado deve ser a primeira e indispensável condição para a verdadeira libertação da sociedade; só depois que isso acontecer é que a sociedade poderá ser organizada de outra maneira."(3)

      Em suma, os considerados três grandes inimigos – Estado, Capital e Religião – eram atacados com ferocidade. Os autores libertários esgrimiam ferozes críticas denunciando que a articulação entre eles assegurava a continuidade da exploração. Como afirmou Sébastien Faure, um noviço jesuíta que se transformou em anticlerical e pacifista, na Enciclopédia Anarquista: "A Autoridade assume três formas principais que geram três tipos de coação: 1º a forma política: o Estado; 2º a forma econômica: o Capital; 3º a forma moral: a Religião."(4) 

      O Estado é acusado de não promover a segurança de todos, pelo contrário, ele apenas garante a segurança dos proprietários ante à ameaça de expropriação das camadas despossuídas. Para Bakunin: …"Estado quer dizer dominação, e toda dominação supõe a subjugação das massas e conseqüentemente sua exploração em proveito de uma minoria governamental qualquer. (5) 

      O Capital usurpa o produto do trabalho coletivo. Essa apropriação é feita através de determinadas relações de força entre os capitalistas e as massas trabalhadoras. O antagonismo presente nessas relações foi explicitado no provocativo mote de Proudhon: "A propriedade é um roubo!". 

      A Religião era considerada um elemento de sustentação da propriedade privada e das relações sociais de dominação. Dessa forma, todas as religiões, exceto aquelas menos elaboradas, eram associadas aos dominadores. A ideologia dominante procura defender uma visão harmônica da sociedade e a aceitação de cada um do lugar destinado na estrutura social. Ao procurar incutir nos explorados a aceitação do seu destino miserável como um desejo de Deus, a religião corrompe a consciência social e ocasiona um conformismo letárgico, tornando-se aliada dos demais inimigos dos trabalhadores.(6)

      A Igreja Católica era acusada de ser igual às outras instituições centralizadas, autoritárias e burocráticas. Para os padres, a vida cristã é uma totalidade, da qual nenhum espaço ou comportamento pode escapar das regras por eles ditadas. O cuidado da Igreja em demarcar a vida das pessoas através dos sacramentos era ridicularizado pelos libertários: A religião, nomeadamente a católica, é um amontoado de fantasmagóricas que trazem o homem preso do berço ao túmulo, ao nascer, já que entra no molho da água benta, ao correr da vida os jejuns, as macerações, as confissões e o casamento. Na morte a encomendação, as missas, etc…(7) 

      Entre o último quartel do século XIX e o início da Primeira Guerra, embora as religiões não apresentassem em escala mundial um aparente decréscimo, foi evidente que nos países ocidentais centrais, talvez com exceção dos Estados Unidos, ocorreu um recuo sem precedentes das religiões tradicionais.(8) O processo de descristianização e laicização da sociedade ocorreu, com graus de radicalidade, em todos os países de população católica. O progresso, o avanço da ciência e da razão, assim como o crescimento da secularização promoveram uma perda no status da Igreja. As lutas emancipatórias promovidas pelos setores oprimidos e mesmo interesses estratégicos de políticos liberais fizeram com que ocorresse uma acentuada descristianização e uma laicização cada vez mais militante. Como afirmou Hobsbawm: "O anticlericalismo se tornou um problema central da política dos países católicos por duas razões principais: porque a Igreja Católica Romana optara por uma rejeição total da ideologia da razão e do progresso, só podendo, portanto, ser identificada à direita política, e porque a luta contra a superstição e o obscurantismo, mais que dividir capitalistas e proletários, uniu a burguesia liberal e a classe trabalhador".(9) 

      A palavra anticlerical é de origem francesa, aparecendo pela primeira vez por volta da década de 1850. O anticlericalismo foi incorporado ao programa dos agrupamentos de esquerda e de centro naquele país. Em pouco tempo, espalhou-se por toda a Europa e chegou na América.(10) 

O COMBATE AOS PADRES 

A Expressão anarquista anticlerical: 
a) luta contra os padres, para mostrar as contradições· de suas vidas com as doutrinas que professam; o sacerdócio como profissão, tendo o interesse material como base; 
b) luta contra a influência política da Igreja pela ação direta e pela propaganda extraparlamentar; 
c) denúncia do poder econômico da Igreja, da Igreja como empresa, como auxiliar de exploração capitalista, como fator do crumirismo.
Esse é o anticlericalrismo dos anarquistas.
(11) 
Neno Vasco (12) 

      A maior influência dos anarquistas se deu nos países latinos, onde a presença do catolicismo era mais forte. O choque entre duas concepções tão antagônicas foi inevitável. O radicalismo dos discursos anticlericais cresceu conforme foi aumentando o tom irado dos padres. Toda ocasião era aproveitada para repudiar o cristianismo e o membros do clero. Bakunin, no artigo "O Estado: alienação e natureza , assim como em outras ocasiões, destacou a necessidade de se combater a Igreja Católica: Todos os Estados onde os povos ainda podem respirar, são, do ponto de vista ideal do Estado, incompletos, como são todas as Igrejas em comparação com a Igreja Católica!"

      Ante a ameaça do inferno pregada pelos padres a todos aqueles que se desviassem do reto caminho de Cristo, os anarquistas apontavam que entre a vida levada pelas exploradas classes trabalhadoras e o local da penação bíblica a diferença era, talvez, apenas de grau. 

      O clero era sempre atacado com ferocidade. "O Clero Católico é uma vasta associação religiosa-política- social, cujos fins se afastam da civilização contemporânea, cujos membros, pela característica de seus modos de vida, afastando-se da realidade da vida, constituem uma constante ameaça ao progresso e à civilização, à moral e aos bons costumes." 

      Ou ainda: "Os clérigos, esses instrumentos cegos dos ricos, esses parasitas que somente servem para embrutecer ao povo, conservando-o no maior obscurantismo, dizem a seus ouvintes: 

      Filhos! Trabalhai, sofrei, respeitai aos nossos patrões, aos poderosos, porque quanto mais sofreis na terra tanto mais gozarás no céu! 

      Os papas, como chefes máximos da Igreja, eram acusados de serem a cabeça da serpente: …."A Igreja é um réptil que dá a volta ao mundo, / e em cujas espirais ébrias de raiva insana/ um laconte imortal a consciência humana,/ há séculos se estorce em convulsão atroz/ Os elos desse monstro implacável sois vós, sacristas/ A cabeça é o papal Ora as serpentes/ têm a força na cauda e o veneno nos dentes!’ 

      A Bíblia era considerada "literatura de dominadores, destinada a celebrar os tiranos e suas leis e a ensinar o povo a resignação e a obediência; a Bíblia expõe o mecanismo da escravidão em termos claros, quase cândidos à luz da hipocrisia democrática moderna!"

      A Igreja era acusada de manter o celibato clerical como um valor importante, embora não fosse sempre cumprido pelos seus membros. A castidade era apontada como uma violação das leis biológicas, contribuindo para a perpetração de hediondos crimes. A denúncia das violações das normas sexuais de abstinência e de comportamentos considerados imorais por parte do clero foi uma característica marcante do discurso anticlerical. Para os anarquistas, muitos padres e freiras relativizavam as prescrições de Roma sobre a matéria de moral sexual. No púlpito e nas suas conservas com os fiéis até eram capazes de pregar as recomendações da Igreja. Porém, essa misogamia não era cumprida. Na iconografia libertária, os padres e freiras eram freqüentemente representados através de imagens de homens e mulheres obesos, aparentemente bêbados e com olhares concupiscentes. 

      Na temática anticlerical, um outro aspecto importante era a luta a favor da razão, da ciência e do conhecimento e contra o "obscurantismo medieval da Igreja. Os padres eram acusados de temerem o avanço da ciência, pois isso dificultaria a retórica da superstição impingida por eles. Nos artigos publicados na imprensa anticlerical, era comum a presença de biografias de cientistas, destacando-se as perseguições promovidas pela Inquisição. 

      Apesar de um tom muitas vezes profético e irado, é inegável que a sátira e o sarcasmo ferino também eram componentes importantes no discurso libertário. Os antigos anarquistas – e isso deveria servir de exemplo para os atuais – protestariam e gozariam desbragadamente da visita do papa João Paulo fie talvez até fizessem caricaturas mostrando que a Madre Tereza de Calcutá foi amante do Frei Damião. Os católicos ficariam escandalizados, para o deleite dos anticlericais libertários. A luta dos antigos hereges e excomungados ainda merece ser lembrada.

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